Xeque-Mate

...por Moises Neto


- Vai nessa de quem perdoa é Deus só pra tu ver...

- Ver o quê, cara? Só tô falando...

- ... merda, Breno! Tu só tá falando merda.

- Aham, sei.

- A noite toda, porra.

- Tá, cara... Eu sei, já disse.

- Bom saber mesmo.

- Maluco com nome de moça querendo advogar...

- Vá te tomar nesse teu enrugado, hein!


Risos. De um lado, tão somente.


- Tá. Bora logo pra não atrasar mais ainda.


São nem dez pras sete quando Breno e Iracy estacionam no Palio em frente ao número 299. Enquanto o primeiro ajusta o ferro por baixo da camisa - o tambor já com uma a menos - o segundo se afasta um pouco, tentar contemplar o todo da rua. Deserta.


- Agora é só esperar - ele disse.

- Show, mas quanto?

- Só marcar um dez.

- Hmmmm...

- Qual foi?

- Hmmmm...

- Que viadagem é essa agora de ficar gemendo?

- Teu cu, Iracy!


Risos. Do outro lado agora. Tão somente.


- Mas diz, mano. O que foi?

- Nada não...

- Ih... fala logo, caralho!

- Sei lá, só não tô curtindo muito essa parada.

- Ah, Breno. Fala sério!

- O quê?

- Tu acha que eu curto passar o arrombado na frente do garoto?

- Acho...

- Claro que não, idiota. A gente é bicho agora?

- Podes crer, maior vacilo essa merda.

- Sim, mano... só que, por isso mesmo, é que pra mim tem um porém.

- Porém? Qual porém?

- Essas histórias só terminam de dois modos, trauma ou vingança.

- Real... às vezes até os dois.

- Isso, às vezes até os dois.

- Tá, mas e aí?

- Aí que por mim passava logo o guri também.

- Caralho, Iracy! Tá maluco, filho da puta?

- Pô, pra poupar o moleque da dor, ué.

- Aham... e tu não é bicho não, né?

- Se fuder, Breno...

- Vai tu.


E permanecem em silêncio até às sete. Pontuais como o sol, descem pela escada, em direção ao portão, doutor Yousef e seu filho Kareem. O estranhamento pela ausência do motorista à espera com a porta traseira do Opala aberta se confunde com a rápida identificação dos homens ao seu encontro. Tenta correr, mas é atingido nas costas antes mesmo de alcançar o veículo. No impulso, empurra Kareem para a frente do veículo. O menino grita, aos prantos e com as mãos nos ouvidos, enquanto seu pai implora em vão antes de levar mais três balaços na cabeça.


- Ei, garoto...

- Deixa o moleque, Iracy, é só uma criança.

- Deixa de ser frouxo, cara! Não tô mais aguentando esse teu papinho.


Paralisado, encostado ao parachoque, o menino os encara, mas não consegue chorar. Iracy se agacha de forma que seus olhos ficam rentes aos de Kareem. Ele abre seu sorriso dourado, fazendo com que os traços marcados de seu rosto formem um desenho macabro. Com a mão em seus ombros, seu parceiro tenta intervir mais uma vez, mas segue ignorado.


- Vai ser rápido, eu prometo - um dos assassinos do pai do menino assustado diz, mas tão logo engatilha a arma, seus miolos explodem na cara da criança.

- QUE PORRA É ESSA?! - grita Breno, igualmente alvejado, sem tempo sequer de se virar pra conferir seu algoz. Tomba em frente ao menino, seu lábio leporino ainda tremendo, com o esforço do corpo à procura de um último suspiro.


Um outro sujeito, celular em punho, se aproxima dos corpos desfalecidos de Breno e Iracy e, ao olhar para o menino petrificado, encosta o dedo na boca e pede silêncio.


- Feito, chefe. Numa caixadada só... Oi? Ah, sim, sim... Cajadada. Numa cajadada só, o doutor e dois homens do turco. Hmmm... Breno e Iracy, aqueles da joalheria, lembra? A irmã de um deles é aquela Rose, do Paris. Isso, isso - segue conversando com mais alguém que queria Yousef morto. - O motorista? De madrugada ainda, ficaram rodando com o corpo a noite toda. Mas, chefe, e o garoto? Certeza? Tá, o senhor que sabe. Eu cuido de tudo. Até daqui a pouco.


O homem enfim desliga e esboça um muxoxo ao encarar o menino novamente. Revira os olhos, bate com o cano da prateada duas vezes na testa e diz:


- Foi mal, garoto. Vai ser melhor assim. Que Deus te receba!


Aponta a arma para a testa de Kareem e, com a outra mão, aperta um crucifixo. No mesmo instante em que engatilha, um novo estampido anuncia o estrago em sua cabeça, projetando pedaços do que um dia foi no rosto do menino, ainda em estado de choque. Ele cai de um jeito engraçado, pernas e braços formando uma suástica torta, o coque desfeito despejando os cabelos sobre a perna de Kareem. Agora são três as pistolas a sua disposição, mas ele sabe que não vai utilizar nenhuma. Ele só quer que tudo acabe.


O som dos saltos na rua banhada de sangue. Uma gargalhada irritante e afetada. Kareem já sabe o que vem a seguir. Sequer presta atenção à ligação da menina aparentemente dez anos mais velha que ele - e ele tem nove anos de idade, a quem interessar possa. Nem mesmo quer saber o nome do responsável pelo fim da sua vida como a conhecia. Seus olhos, agora marejados, apenas acompanham os da garota enquanto ela se aproxima.


- Oi, Kareem... é esse seu nome, né?

- Só me mata, sua filha da pu...


BUM!!!!!


Fim.

Moises Neto é escritor, colaborador da Tramatura, cofundador da @sarjetaliteraria (espia isso lá no Instagram), revisor minucioso e carioca apaixonado pela cidade do Rio de Janeiro e seus 6.8 milhões de tipos de habitantes.

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