SCARS OF DRACULA, de 1970

O melhor filme dos estúdios Hammer com Christopher Lee no papel do velho Conde

Sim, estamos falando de um filme de 1970, datado, que provavelmente faz muita gente torcer o nariz hoje. Mas espere um pouco, criança: para a época, Scars of Dracula (ou O Conde Drácula) é uma história horror bastante violenta, sanguinária e bruta.


Friso em: para a época, criança!


Mas antes de falar especificamente sobre o filme, vamos pegar algumas linhas para falar sobre a produtora Hammer.

Se você não está ligando o nome à pessoa, precisa saber que a Hammer Film Productions é uma produtora de filmes britânica fundada em 1934, que ficou mais conhecida por uma série de filmes góticos de terror e fantasia feitos principalmente entre 1950 e os anos 1970.


A maioria desses filmes focava em personagens clássicos do terror, como o Barão Victor Frankenstein, o próprio Conde Drácula, o lobisomem, a múmia... o que fez com que a Hammer reintroduzisse essas histórias e personagens ao público daquele período, filmando-os em cores vivas pela primeira vez!


Mas a Hammer também produziu ficção científica, thrillers, filmes noir, comédias, ultimamente até séries de televisão.


Sim, ela ainda existe e produz: um exemplo mais ou menos recente é A Mulher de Preto, de 2012, excelente filme de horror estrelado pelo Harry Potter Daniel Radcliffe.

Mas foi naquele período de 1950 a meados dos anos 1970, durante seus anos de maior sucesso, que a Hammer dominou o mercado de filmes de terror, desfrutando de distribuição mundial e considerável sucesso financeiro. Sucesso que se deveu, em parte, às parcerias de distribuição com as americanas como United Artists, Warner, Universal, Columbia, Paramount, Fox, Metro-Goldwyn-Mayer...


Os filmes de terror da Hammer trouxeram para o estrelato atores como o próprio Christopher Lee, Peter Cushing que fez o algoz Van Helsing do Dracula e o cientista Victor Frankenstein, Oliver Reed como o Lobisomem...

Atrizes como Ingrid Pitt, Barbara Shelley, Madeline Smith...


Vários desses atores e atrizes também trabalhavam para outra produtora, a Amicus, que também produzia filmes de terror, e foi a que mais chegou perto de concorrer com o sucesso da Hammer.


Infelizmente, já em 1970, quando o filme O Conde Drácula (que não foi o primeiro de Christopher Lee como Drácula da Hammer), os filmes do estúdio já perdiam espaço para as fitas de horror americanas, tornando a fórmula do vampiro atrás da noiva do mocinho já bem desgastada e até chata.


Pois é, esse nariz torcido que você deixou escapar aí quando viu que esta matéria aqui é sobre um filme de Drácula do Christopher Lee já está velho, mofado e cheio de poeira, porque o cansaço com a Hammer já estava nascendo quando Scars of Dracula foi lançado, em 1970.


No entanto, acredite, guardados todos os problemas de narrativa, efeitos especiais e enquadramentos que o envelhecimento, que o passar do tempo acabam trazendo para um filme produzido há cinquenta anos, Scars of Dracula PRECISA ser assistido.

O filme começa com o Conde sendo ressuscitado por um morcegão que cospe sangue sobre seus restos numa tumba secreta do castelo. O animalzinho de estimação de Drácula – que reaparece em vários momentos ao longo do filme, entrando em igrejas e arrancando crucifixos dos colos decotados das donzelas para abrir caminho para o capiroto – é uma atração à parte: um tosquíssimo boneco de pano chacoalhado no ar por fios de nylon MUITO aparentes e frustrantes, mas era o que tínhamos para o momento.


– Ei! Tem certeza de que esse filme devia estar numa lista de fitas importantes do horror? – Olha, a gente assistia a essas pérolas em televisores de vinte polegadas, cuja definição era a de uma foto 3x4 pixelada ao tamanho de um outdoor. Então fica quieto aí e ouve o que eu tenho para dizer.

Corta para o jovem Paul Carlson, picareta aproveitador de mocinhas incautas que precisa fugir da polícia depois que uma alta autoridade da cidade grande descobre que ele prevaricou com a sua filha – uma santinha do pau oco que acusa o rapaz de ter tentado abusar dela!


Cenas de fuga a cavalo, a pé, no meio de uma festa, o meliante cai numa carruagem que atravessa cidades... Encurtamos para quando ele acaba no castelo (quase) abandonado do Conde e... morre, claro.

Simon Carlson, irmão do safardana Paul, vai à procura do desaparecido. Ele segue para a vila amaldiçoada levando à tira colo a belíssima noiva Sarah Framsen, vivida pela atriz Jenny Hanley, que um ano antes fez uma ponta em 007 A Serviço de Sua majestade – o ultra tosco único filme do espião inglês estrelado por George Lazemby. Janny Hanley é creditada apenas como A Garota Irlandesa — o filme tem um plot em que aparecem essas várias garotas de várias nacionalidades, creditadas como a garota chinesa, a garota jamaicana, a garota indiana...

Bom, 007 é outro cara e estamos falando de Drácula.


Onde eu tava mesmo?


Sim: Simon Carlson parte em busca do irmão mais safado e fugitivo, e a noiva Sarah segue com ele — e é claro que ela tem uma quedinha bem pouco velada pelo cunhado canalha — pobre Simon!


E a busca leva os dois para onde?


Um naco de chouriço mineiro se você disse que eles acabam no castelo do vampirão!


O filme segue nesse vai e vem, olhares atravessados de Christopher Lee fazendo caretas e bocarras, seu capanga Klove (bem ao estilo corcunda manco que ajuda o cramulhão) apaixonando-se pela mocinha e saboreando o dilema de obedecer ao mestre ou salvar sua amada...


E um final meio Deus ex Machina.


Se você não sabe o que é um final Deus Ex Machina, aí vai: são aquelas situações que salvam o mocinho e a mocinha sem nenhuma interferência deles – uma espécie de milagre caído do céu, na maioria das vezes inesperado e frustrante.

Bom, o filme basicamente é isso.


Contudo!


Eu tinha 7 ou 8 anos quando assisti a esse filme pela primeira vez, sozinho na sala, de madrugada: isso te dá uma boa ideia do tamanho do impacto que ele teve para mim. Tanto que passei a SEGUIR os filmes de vampiro que passavam nas madrugadas. Sempre havia um. Alguns deles ainda não consegui assistir novamente – havia tantas cópias e filmes de vampiros produzidos naquele período entre 1960 e 1970 e que eram reprisados nos Corujões da TV, perto da virada para a década de 1980, que os nomes e cenas se confundem, misturam-se num banho de sangue, vampiras voluptuosas e seminuas, trilhas sonoras datadas...


E vilas do interior inglês! Cenário que retornaria ao cinema quando John Landis colocou David Naughton e Griffin Dunne para correr de uma criatura meio homem e meio lobo nos confins rurais da Inglaterra.


Bom, espero que você tenha pelo menos se deixado contaminar por uma sementinha de curiosidade sobre Scars of Dracula. Dê uma chance a ele – mas vá assisti-lo lembrando que é uma obra cinematográfica que tem mais de cinquenta anos de idade. Perdoe as caras e bocas do Drácula de Christopher Lee, o morcego de pano...


Assista pensando que você é um garoto de 8 anos de idade, sozinho na sala, morrendo de medo e de vontade de ver como a história termina.


Se tomar esse cuidado, garanto que a velha Hammer vai te retribuir com mais qualidade de história (e aqui estou falando do enredo, mas também de um pouco da História do Cinema de Horror) do que seriados de vampiros teens ou nosferatus bonitinhos que brilham sob a luz do sol.


Jefferson Sarmento é escritor da Tramatura, autor de A Casa das 100 Janelas, Relicário da Maldade, Alice em Silêncio... ... e colaborador da Casa de Tramas.

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