Blade Runner (1982)
- Jefferson Sarmento
- há 6 dias
- 4 min de leitura
Revisitando um clássico de ficção científica que vai muito além do escapismo visual
Na perseguição final, sob chuva e concreto, Deckard foge em desespero para tentar sobreviver. Roy Batty uiva em seu encalço, sangra e tenta agarrar alguns minutos de existência com as próprias mãos — a caça perseguindo o caçador. O fim desse embate é o caçador de androides dependurado em uma viga, prestes a despencar para o abismo, enquanto o replicante observa curioso. E então acontece o gesto que define o filme: o “monstro” escolhe preservar a vida do homem que caçou e matou seus iguais.
Lançado em 1982, Blade Runner apareceu como um corpo estranho dentro da ficção científica popular daquele período: o público de cinema parecia querer filmes de ficção científica com heróis claros, reconhecíveis, lutas por justiça, o bem contra o mal... Em vez de aventura e otimismo tecnológico, Blade Runner entregou um futuro úmido, poluído e melancólico. A Los Angeles de 2019 apresentada no filme é uma metrópole vertical e sufocante, onde o progresso é a fonte da entropia: escuridão e sombras conta o excesso de luzes ofuscantes em neon, longos silêncios de palavras e caos de ruídos e estrondos abafados, superpopulação e uma ausência enorme de humanidade e de sentido. Mas o interessante é que filme não perde tempo em explicar esse mundo: sua missão é que você respire esse ambiente, conviva com ele, sinta-se nele, mesmo que doa.
Na superfície, a trama é direta: Rick Deckard é chamado para “retirar” replicantes que voltaram ilegalmente à Terra. “Retirar” aqui é só um disfarce educado para eliminar. A estrutura emula as histórias policiais noir do começo do século XX: uma missão do tipo "alguém tem que fazer o trabalho sujo", uma cidade corrupta, um investigador cansado e cínico. Mas o filme corrói essa promessa por dentro. A cada encontro do caçador com os androides ou com a polícia, com as pessoas com quem tem que lidar... a caçada deixa de ser sobre os replicantes e passa a revelar fissuras no próprio Rick Deckard. A pergunta muda. Já não é “como identificar um androide?”, e sim “o que separa, de verdade, um humano de uma máquina?”.

Blade Runner, Ridley Scott e a recusa da explicação
Ridley Scott dirige Blade Runner como alguém que sabe que explicação demais mata o mistério. O ritmo é contemplativo, às vezes desconfortável. A câmera espreita por vidros, grades, fumaça e reflexos, como se o mundo inteiro fosse um filtro entre nós e a realidade. A montagem deixa os silêncios dialogarem conosco, deixa a cidade esmagar a cena, deixa você se perder um pouco. Em vez de conduzir, o filme dissolve certezas e nós encontramos significado exatamente na ausência total delas.
O tema central é a memória. Os replicantes constroem identidade a partir de lembranças, e o filme insiste na pergunta inquietante: importa a origem dessas lembranças, ou importa a forma como elas são sentidas? Se a emoção é verdadeira, a memória é menos “real”?
A finitude entra como uma lâmina, o fio condutor da ação: os replicantes têm prazo de validade; sabem que vão morrer. Por isso vivem com intensidade brutal, poética e desesperada. Em contraste, muitos humanos parecem anestesiados, presos a rotinas vazias. Blade Runner vira o jogo: as máquinas demonstram mais fome de vida do que os homens que as fabricaram.
E por trás disso tudo existe um comentário social silencioso: vidas produzidas para servir, colonizar, lutar e morrer longe. Produtos com vencimento. Quando voltam em busca de mais tempo, viram defeitos a serem eliminados. Longe de discursar sobre pautas trabalhistas em cima de um palanque, o filme mostra a engrenagem funcionando: moendo quem está ali para produzir e se acha no direito de questionar.
Lágrimas na chuva: O caçador vazio e o replicante que aprende a viver
Deckard é um protagonista estranho: apático, sem heroísmo, sem arco clássico. Ele apanha em todas as interações com os replicantes. E Harrison Ford o interpreta como se o personagem já estivesse cansado antes mesmo de começar. Ele executa um trabalho que parece burocrático, mas é moralmente insustentável.
Por isso Roy Batty se torna o coração do filme. Ele começa como ameaça e termina como tragédia. Quer mais vida, encontra a crueldade do sistema e, no instante final, faz algo que ninguém espera: poupa a vida que buscava a sua morte. É aí que o monólogo “Lágrimas na chuva” ganha seu peso real. Roy não está tentando convencer Deckard. Ele está tentando salvar alguma coisa do naufrágio: a experiência de ter existido.
— Eu vi coisas nas quais vocês nunca acreditariam — Roy diz, encarando seu algoz com um estranho sorriso consciente, calmo e professoral nos lábios finos. — Naves de ataque em chamas perto da borda de Orion. Vi a luz do farol cintilar no escuro, no Portal Tannhaüser. Todos esses momentos se perderão no tempo... como... lágrimas na chuva. Hora de morrer.

Um clássico porque não se contenta
Blade Runner teve uma recepção confusa na época, e faz sentido: ele é frio para quem espera conforto. Mas o tempo fez seu trabalho: hoje, o filme é referência incontornável do gênero, não só pela estética, mas pela coragem de manter a pergunta em aberto.
Rever Blade Runner é aceitar um convite ao desconforto. Você começa achando que é uma história sobre um caçador eliminando androides. Depois percebe que é sobre androides tentando simplesmente viver. E termina entendendo que é, no fundo, sobre nós: o que fazemos com o pouco tempo que temos e o que sobra quando a memória (real ou fabricada) vira o último abrigo contra o esquecimento.
Um clássico que ignora a necessidade de respostas e se concentra magistralmente nas perguntas.

