Drácula, de Bram Stoker
- Jefferson Sarmento
- há 6 dias
- 6 min de leitura
A obra mais importante da literatura de horror?
Publicado em 1897, no crepúsculo do século XIX, Drácula está além de ser um simples romance gótico. Trata-se de uma obra que reorganizou o medo moderno em forma literária. Pouquíssimos livros conseguiram atravessar mais de um século sem jamais sair de catálogo, sendo continuamente lidos, traduzidos, reinterpretados e disputados por diferentes gerações. O vampiro criado por Bram Stoker foi apropriado pela cultura popular a ponto de se tornar um arquétipo quase independente do livro original, mas o romance permanece como o núcleo duro dessa mitologia, resistindo às simplificações, às leituras apressadas e às versões excessivamente romantizadas.
Mais do que apresentar um monstro, Stoker construiu um sistema narrativo complexo, no qual o horror emerge da colisão entre racionalidade moderna vitoriana, superstição ancestral e, o principal: medo social. Drácula é uma história de vampiros, uma história de terro, mas precisamos enxergar além do gênero: é também um retrato das ansiedades de uma Inglaterra que se via como centro do mundo e, ao mesmo tempo, temia aquilo que vinha de fora de suas fronteiras culturais, morais e geográficas.

As raízes folclóricas do horror
Entre as fontes mais importantes utilizadas por Bram Stoker está a obra da escritora escocesa Emily Gerard, especialmente o livro The Land Beyond the Forest (1890). Após se casar com um oficial austro-húngaro, Gerard passou anos vivendo na Europa Oriental, onde teve contato direto com o folclore, as crenças religiosas e as superstições populares da... Transilvânia! Seu trabalho não se limita à ficção: há ali um esforço quase antropológico de registrar práticas e mitos transmitidos oralmente entre os camponeses da região.
Nos textos de Gerard, o vampiro aparece como uma presença absolutamente concreta no imaginário local. O nosferatu não é tratado como lenda distante, mas como ameaça real, combatida com rituais específicos, profanação de túmulos, estacas, decapitações e uso de alho. Essa visão pragmática do sobrenatural, em que o horror é enfrentado com procedimentos quase técnicos, foi absorvida por Bram Stoker e incorporada à espinha dorsal de Drácula, conferindo ao romance uma sensação de verossimilhança que sustenta sua força até hoje.
O escritor pesquisador e suas anotações

Em 2018, a Biblioteca de Londres confirmou que Bram Stoker havia consultado pelo menos 25 obras diferentes durante a elaboração de Drácula. Esse número é conservador, pois se baseia apenas nos registros que puderam ser cruzados com as mais de cem páginas de anotações manuscritas do autor, redescobertas em 1962. Esses documentos revelam um escritor meticuloso, que testava ideias, descartava caminhos narrativos e organizava referências com extremo cuidado.
Um dado especialmente revelador é que Stoker possuía sua própria edição de The Land Beyond the Forest, repleta de grifos, comentários e notas à margem. Esse exemplar, doado à biblioteca por seu filho em 1935, permitiu que pesquisadores como Phillip Spedding rastreassem outros livros manuseados por Stoker. O impacto desse material se confirma ao evidenciar que Drácula não nasceu de um lampejo criativo isolado, mas de um longo processo de pesquisa, acúmulo e refinamento.
A arquitetura da narrativa epistolar de Drácula
A escolha da forma epistolar foi, certamente, uma das decisões mais inteligentes de Bram Stoker. Drácula se constrói a partir de cartas, diários, telegramas, recortes de jornal e registros médicos, compondo uma narrativa fragmentada que exige do leitor um papel mais ativo do que simplesmente acompanhar uma narrativa, como se estivesse sentado na cozinha de casa tomando um café e ouvindo o avô contar uma história de fantasmas. Em Drácula não existe um narrador onisciente que organize o horror; ele surge aos poucos, a partir de relatos parciais, muitas vezes contraditórios, sempre muito humanos e testemunhais.
Esse formato dissolve a ideia de um protagonista central. Jonathan Harker, Mina Murray, Van Helsing e Lucy Westenra compartilham o foco narrativo, enquanto o próprio Drácula permanece como uma presença silenciosa. O vampiro nunca fala diretamente ao leitor. Ele existe apenas por meio do impacto que causa nos outros. Esse silêncio transforma Drácula em uma força quase abstrata, mais próxima de uma ideia ou de um medo coletivo do que de um personagem tradicional. E é importantíssimo que seja assim, porque esse distanciamente (proposital por parte do escritor) o torna uma figura ainda mais imprevisível e potencialmente terrível.
Aliás, essa condição conversa diretamente com a paranoia social daquele momento: no final do século XIX, a Inglaterra vivia um período de tensão marcado por avanços tecnológicos, transformações sociais e um medo crescente do estrangeiro. O Império Britânico era vasto, mas essa expansão vinha acompanhada de inseguranças profundas: invasões passadas, imigração, mistura cultural e o temor da decadência moral. Drácula encarna esse medo com precisão cirúrgica. O conde é estrangeiro, fala uma língua estranha, carrega costumes arcaicos e vem de uma região associada à superstição e à barbárie. Sua chegada à Inglaterra é física, mas simbólica também: ele invade casas, corpos e mentes. Durante décadas, tentou-se ligar diretamente Drácula à figura histórica de Vlad III, mas essa associação nunca foi comprovada documentalmente. A ligação mais sólida é outra e com outro personagem; com Ármin Vámbéry, amigo de Stoker, que provavelmente serviu de modelo (até certo ponto) para Van Helsing.
O romance que poderia ter sido outro
As anotações de Bram Stoker revelam um processo criativo cheio de desvios e possibilidades abandonadas. Em versões iniciais, o vampiro não seria romeno, mas austríaco. Chamaria Conde Wampyr e enfrentaria um professor alemão em uma narrativa mais próxima do romance policial ou da literatura de investigação psíquica. Havia inclusive personagens pensados como detetives ou estudiosos do oculto, o que colocaria Drácula em outro território literário. Esses caminhos descartados ajudam a entender a força da versão final. Ao abandonar a estrutura policial tradicional, Stoker permitiu que o horror se espalhasse de forma difusa, sem solução simples, criando uma obra mais ambígua e inquietante. Drácula não foi o primeiro livro sobre vampiros, mas foi aquele que consolidou o monstro como figura central da cultura moderna.

Sim, o vampiro já frequentava a literatura muito antes de Stoker. Carmilla, de Sheridan Le Fanu, veio em 1872 e trouxe uma vampira marcada por erotismo e ambiguidade sexual. Já The Vampyre (de 1819!), de John Polidori, inspirado em Lord Byron, apresentou o vampiro aristocrático e sedutor, figura fundamental para o gênero; aliás, é uma história "irmã" de Frankenstein, de Mary Shelley, por ter sido concebida no mitológico encontro Polidori, Lord Byron, Mary Shelley e Percy Shelley, que ocorreu no verão de 1816, na Villa Diodati, às margens do Lago Genebra, na Suíça. Devido ao clima chuvoso e inusitado, o grupo se reuniu para ler histórias de fantasmas alemãs e Byron propôs um desafio: cada um deveria escrever sua própria história de terror...
Mas voltando a Bram Stoker, é importante entender que ele não apagou essas influências ao escrever sua história. Ele as organizou, expandiu e integrou em uma narrativa mais complexa, capaz de dialogar com o folclore, a ciência, a religião e os medos sociais de seu tempo. É essa síntese que transforma Drácula em um ponto de inflexão na história do horror na literatura.
Fracasso financeiro e vitória cultural
Apesar de sua importância, Drácula não trouxe riqueza a Bram Stoker. O autor passou grande parte da vida trabalhando como gerente do Lyceum Theatre, em Londres, graças à amizade com o ator Henry Irving. A obra teve uma recepção discreta e, por um erro de registro, acabou entrando em domínio público nos Estados Unidos, o que facilitou sua disseminação, mas não beneficiou financeiramente o autor. Após sua morte, sua viúva Florence Balcombe travou uma famosa batalha judicial contra o filme Nosferatu, de F. W. Murnau. Mesmo com mudanças de nomes e detalhes, o filme era claramente baseado no romance. Hoje, é lembrado como um dos marcos do cinema expressionista e como o filme ilegal mais famoso da história.

Mais de um século depois, Drácula continua a se multiplicar. Dos vampiros existenciais de Anne Rice às releituras juvenis de Stephenie Meyer, das produções da Hammer às adaptações contemporâneas, o conde segue sendo reinventado, reinterpretado, expandido. Poucos personagens literários possuem tamanha capacidade de adaptação sem perder sua identidade essencial.
Isso não acontece por acaso. Bram Stoker criou algo que vai além do monstro: criou uma estrutura simbólica aberta, capaz de dialogar com diferentes épocas, medos e desejos. Drácula não sobreviveu ao tempo apesar das mudanças culturais, mas justamente por ser flexível o suficiente para absorvê-las.




Comentários