Drácula, de Coppola
- Jefferson Sarmento
- há 6 dias
- 5 min de leitura
O excesso como linguagem, o desejo como motor
Poucos filmes estabelecem um pacto tão explícito com o espectador quanto Drácula de Bram Stoker, dirigido por Francis Ford Coppola. Desde o prólogo, o filme anuncia que não pretende ser observado com frieza ou distância analítica. O “não me veja”, pronunciado pela criatura no jardim (a cena em que Drácula, transformado em homem-lobo, sodomisa Lucy Westenra) funciona como um aviso simbólico: este é um cinema que exige envolvimento emocional, que convoca o olhar para além do conforto e coloca o espectador diante de um espetáculo onde horror, erotismo, fé e culpa coexistem sem hierarquia. Coppola se desfaz de qualquer sutileza e carrega a história (visual, principalmente) de intensidade, construindo um Drácula que se impõe como figura central, magnética, capaz de reorganizar todo o universo narrativo ao seu redor.
A famosa sequência do ataque a Lucy no jardim sintetiza essa proposta. A encenação é cheia de simbolismo visual: a noite, a névoa, o labirinto vegetal, o corpo feminino em vermelho, a criatura lupina que mistura violência e sexualidade. É um momento de horror gráfico, mas também de exposição explícita do conflito que atravessa o filme inteiro: a tensão entre repressão social e desejo irrefreável. Mina, paralisada como testemunha involuntária, representa o olhar moral que hesita, que reconhece o abismo, mas não consegue se afastar dele. Coppola transforma essa cena num manifesto estético e temático, deixando claro que seu Drácula será menos um conto de monstros e mais uma tragédia sensorial.

Um filme que resgata o peso do mito
Quando Drácula chegou aos cinemas em 1992, o vampiro já havia atravessado décadas de desgaste cultural. Entre releituras satíricas, continuações automáticas e versões excessivamente domesticadas, o personagem criado por Bram Stoker parecia diluído, esvaziado de sua potência simbólica. Coppola reage a esse contexto com um gesto quase arqueológico: em vez de atualizar o mito, ele decide aprofundá-lo, recuperando o peso dramático e a densidade emocional que haviam se perdido ao longo do caminho. O resultado é um filme que se assume como espetáculo clássico, feito de cenários construídos, figurinos exuberantes, iluminação teatral e efeitos práticos, em oposição direta ao realismo discreto que dominava o cinema dos anos 1990.
Essa escolha estética, longe de ser um capricho nostálgico, explica por que o filme envelheceu tão bem. Ao recusar modismos tecnológicos e apostar numa linguagem deliberadamente artificial, Coppola cria uma obra que não depende da ilusão de realidade, mas da coerência interna de seu universo. O exagero torna-se método. O lirismo visual, a trilha carregada, os gestos amplos e a encenação ritualística conferem ao filme uma identidade forte e única, que continua impactante décadas depois.
A diretriz que orienta toda a produção pode ser resumida numa frase: tudo deveria ser feito “na câmera”. Inspirado pelo cinema mudo, pelo expressionismo alemão e pelos truques artesanais de Georges Méliès, Coppola rejeitou o uso de computação gráfica e buscou recuperar técnicas quase esquecidas da história do cinema. Essa decisão moldou cada aspecto do filme. Roman Coppola coordenou os efeitos práticos, criando sombras independentes, sobreposições e ilusões ópticas que reforçam a sensação de algo antinatural em cena. E os figurinos (manifestações psicológicas dos personagens) complementavam isso com cores, formas e texturas que expressam estados emocionais e impulsos internos dos personagens, e não apenas um período histórico.
Entre fidelidade e ruptura com Bram Stoker
Apesar do título prometer fidelidade ao romance, o filme deixa claro que seu compromisso não é com a literalidade do texto, mas com sua reinterpretação. O roteiro de James V. Hart preserva a estrutura básica da narrativa original, mas reorganiza seu eixo emocional. A mudança mais significativa é a criação do vínculo romântico entre Drácula e Mina, inexistente no livro. No romance de Stoker, o vampiro é uma força predatória, quase abstrata, movida por sobrevivência e domínio. No filme, ele ganha passado, trauma, perda e uma motivação afetiva que redefine suas ações.
Essa escolha desloca o centro da história. O terror investigativo, conduzido pelo grupo de Van Helsing no livro, cede espaço a um drama operístico sobre desejo, culpa e redenção. Mina deixa de ser apenas uma organizadora racional de informações e passa a ocupar uma posição central no conflito emocional da trama. Lucy, por sua vez, transforma-se de símbolo de pureza vitoriana em expressão de energia reprimida, curiosidade, instabilidade e... erotismo.

O filme trata o vampirismo como metáfora explícita de desejo quando nos aprximamos de Lucy. Se Bram Stoker trabalhava com um subtexto sexual filtrado pelo pudor vitoriano, Coppola traz esse conteúdo para o primeiro plano da encenação. O sangue passa a representar energia vital, troca íntima, transgressão física. As cenas de ataque são filmadas como experiências sensoriais, em que prazer e terror se confundem deliberadamente. Mas é imporrante que frisar que esse erotismo não é gratuito nem decorativo. Ele está diretamente ligado ao conflito central entre repressão social e impulso individual. Lucy encarna esse embate de forma extrema, oscilando entre o comportamento esperado e a entrega ao desejo. Mina vive um dilema mais contido, dividido entre o dever conjugal e uma atração que ela própria não compreende; mas que também é sexual.
Ao erotizar o vampirismo, ao carregar o roteiro com desejo e paixão, o filme desloca o horror do monstro para dentro dos personagens, sugerindo que o verdadeiro perigo está naquilo que eles reconhecem em si mesmos.
Três momentos que definem o Drácula de Coppola

O prólogo já estabelece a maior ruptura com o romance. Ao apresentar Vlad Tepes como guerreiro traído pela fé e pela perda da esposa, Coppola transforma o vampiro em figura trágica desde o início. O gesto de profanar a cruz é visualmente impactante! E serve para redefinir o personagem como alguém que escolhe a danação em resposta à dor, e não como criatura condenada por natureza.

E temos a transformação gradual de Lucy Westenra, que dialoga com o livro mais é carregada de intensidade, aprofundando essa leitura do exagero. Sua entrega ao vampirismo é encenada como espetáculo ritualístico, combinando erotismo, violência e teatralidade. A cena do mausoléu, com figurino de noiva e a criança nos braços, sintetiza a estética do filme: luz dramática, maquiagem carregada e uma câmera que observa como se participasse de um rito profano.
E, por fim, o desfecho leva essa lógica ao extremo. Diferente do final pragmático do livro, Coppola opta por uma conclusão íntima e emocional, conduzida por Mina. O ato de matar Drácula torna-se um gesto de compaixão e encerramento simbólico, fechando o ciclo iniciado no prólogo. É uma ruptura clara com Stoker, mas absolutamente coerente com a lógica interna do filme.

Recepção, legado e permanência
À época do lançamento, Drácula dividiu a crítica. O visual exuberante e o tom operístico foram vistos por alguns como excessivos, enquanto outros reconheceram imediatamente a ousadia do projeto. O tempo, porém, foi generoso com o filme. Os prêmios recebidos, especialmente pelos figurinos, maquiagem e edição de som, ajudaram a consolidar sua importância estética. Mais do que isso, a reavaliação crítica ao longo das décadas transformou o que antes era considerado exagero em marca de identidade autoral.
Hoje, Drácula de Bram Stoker é frequentemente citado como o último grande épico gótico do cinema comercial. Um filme que permanece vivo não por sua fidelidade literal ao romance, mas pela coragem de reinterpretá-lo como tragédia romântica, ritual visual e experiência sensorial. Coppola não compete com Stoker; ele dialoga com o texto original e constrói, ao lado dele, uma leitura própria, intensa e inesquecível do mito.




Comentários