OS MENINOS DA RUA PAULO, de Ferenc Molnár

Ou: Os meninos que me ensinaram a ler

Aprendi a gostar de histórias com uma senhora baixinha e ranzinza que passava as tardes entre a mesa de madeira da cozinha, esticando nela os doces que passava horas mexendo com uma colher de pau e muito esforço no fogão de quatro bocas, ou costurando tapetes e colchas de retalhos numa máquina antiga, escura, no quarto dos fundos. Eram sempre as mesmas histórias, mas eu não me cansava delas. E quando minha avó terminava uma, eu já sabia qual seria a próxima...


Ela reclamava um pouco por ficar sempre repetindo o anedotário para o incansável moleque de seu filho mais velho, mas passava de um causo a outro com a desenvoltura dos melhores contadores de histórias. E, amigos, ela era uma excelente contadora de histórias. Meu avô também era e meu pai herdou isso deles, mas não é disso que quero falar.


Minha segunda lembrança é de minha mãe deitada no sofá da sala pequena de nossa casa (vizinha à dos meus avós) com um estranho pacote feito de folhas nas mãos. Ela vivia entretida e mergulhada neles. Eram uns caderno que não tinham folhas para desenhar, porque já vinham com... coisas impressas neles. Eram letras. Dezenas delas. Centenas. Milhares! E ela ficava lá, por hora, passando páginas e devorando as palavras.

Acho que aprendi a ler na segunda série, mas não me recordo de quando foi que me aventurei a tentar vencer um livro! Eles eram quase inalcançáveis para quem ainda juntava letras e tentava acompanhar um gibi do Aranha inteiro. Mas um dia os meninos da turma receberam a incumbência de lutar naquela primeira batalha. As meninas tinham sua tarefa, mas eu jamais vou me lembrar de qual era. Quanto à nossa...


Minha mãe comprou aquele exemplar até pequeno (visto hoje) de Os Meninos da Rua Paulo e eu o achei enoooorme! Pois era essa a nossa missão: tínhamos que ler o livro de Ferenc Molnár nas férias, um sujeito com esse nome estranho, que eu nem sabia pronunciar. E eu achava que levaria um ano inteiro para conseguir terminar. Ledo engano.


Mergulhado nas aventuras e dramas dos garotos pobres da Hungria, inseridos num contexto histórico de guerra, tema que mais fascina que apavora as crianças distantes de uma realidade assim (certamente por conta da glamourização dos filmes, do endeusamento de soldados como heróis, como paladinos da liberdade e todo o blablablá que você pode imaginar), caí de joelhos diante do meu primeiro grande herói juvenil, o bravo e trágico Ernesto Nemecsek.


Bem, eu ainda estava longe, naqueles dias, do contexto humano mais importante no relacionamento íntimo das personagens: o descaso e abandono dos adultos. E a força com que um trauma de guerra pode desfazer sonhos, vidas e destinos. Para um garoto com seus nove ou dez anos, isso não era importante. Mesmo assim, ainda que com um entendimento limitado, o de quem quer viver a plena aventura de uma batalha épica, Os Meninos da Rua Paulo me arrancou lágrimas.


Publicado originalmente em 1907, escrito pelo jornalista Ferenc Molnár, ainda guardo na estante o velho exemplar traduzido por Paulo Rónai (pai da jornalista Cora Rónai), comprado por minha mãe e que tanto me assustou e fascinou há mais de trinta anos - cara, como o tempo passa!


O final trágico e belo encontra eco em obras recentes que tratam de assuntos semelhantes (o sacrifício da inocência infantil diante da barbárie e da insensibilidade do mundo adulto, das guerras adultas, da miséria humana...), mas nenhum livro, jamais, conseguiu ser como aquele. Não para mim, criança: foi minha iniciação à mágica das histórias contadas por minha avó e lidas em silêncio por minha mãe. Foi quando tomei consciência de que aquela paixão era para sempre e que eu queria mais do que ser apenas o espectador dos ilusionistas no palco.


Os Meninos da Rua Paulo me fizeram um apaixonado pelo ofício!

Jefferson Sarmento é escritor da Tramatura, autor de A Casa das 100 Janelas, Relicário da Maldade, Alice em Silêncio... e colaborador da Casa de Tramas.

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