Escrita criativa: que bicho é esse?
- Jefferson Sarmento
- há 5 dias
- 4 min de leitura
Um pequeno ensaio sobre a arte e a técnica de construir boas narrativas

A expressão “escrita criativa” costuma provocar reações curiosas. Para alguns, ela soa sofisticada demais, quase acadêmica; para outros, parece vaga, inflada, um rótulo moderno para algo que escritores sempre fizeram. Em ambos os casos, o problema não está no termo, mas na compreensão superficial do que ele procura nomear. Quando se acredita que escrita criativa seja um selo de qualidade ou um método fechado de criação, perde-se de vista seu verdadeiro campo de atuação: a observação atenta e abrangente dos mecanismos que fazem uma história funcionar e, sobretudo, das razões pelas quais algumas narrativas permanecem vivas e pulsantes enquanto outras se dissolvem logo após a leitura.
Criar, desenvolver e narrar histórias é uma prática ancestral. Muito antes da literatura se consolidar como instituição cultural, narrativas já organizavam o mundo, explicavam o medo, transmitiam memória e atribuíam sentido à experiência humana. A escrita criativa surge quando esse gesto intuitivo passa a ser investigado com consciência. Trata-se de um deslocamento fundamental: não a substituição da sensibilidade pelo cálculo, mas a tentativa de iluminar os mecanismos invisíveis que sustentam uma narrativa — estrutura, ritmo, ponto de vista, construção de personagens, progressão dramática, escolha de cenas. É o momento em que o escritor amplia sua percepção sobre o próprio trabalho, compreendendo as forças que o moldam e as decisões que o atravessam.
Construindo edifícios habitáveis
Nesse sentido, a escrita criativa se afirma como ampliação de repertório. Ao estudar estruturas narrativas — sejam elas clássicas, modernas ou híbridas — o autor expande sua capacidade de escolha. Cada história pede uma arquitetura própria, pensada para acolher aquilo que precisa acontecer dentro dela. Um edifício bem projetado não limita a vida que abriga; ao contrário, cria as condições para que ela exista. Da mesma forma, compreender como histórias se organizam no tempo ajuda o escritor a sustentar tensão, desenvolver temas e conduzir o leitor sem depender exclusivamente do improviso. A técnica, aqui, atua como sustentação: não dita o que deve ser escrito, mas oferece suporte ao que o autor deseja expressar.

O mesmo princípio se aplica à construção de personagens. A escrita criativa compreende o personagem como centro de gravidade da experiência narrativa, não como engrenagem funcional da trama. Um personagem consistente é atravessado por desejos, conflitos e contradições; é alguém que escolhe, hesita, erra e se transforma. Quando o escritor passa a observá-lo dessa forma, a história deixa de ser uma sucessão de acontecimentos e se converte em um processo de transformação. A narrativa ganha densidade ao operar simultaneamente nos planos humano, psicológico e simbólico, estabelecendo um vínculo mais profundo com o leitor.
Outro eixo fundamental desse processo está na noção de voz. Cada escritor desenvolve, ao longo do tempo, uma maneira própria de organizar frases, imagens, silêncios e ritmos. A escrita criativa não entrega essa voz pronta, mas cria as condições para que ela emerja de forma consciente. Ao estudar estilos, estratégias narrativas e escolhas formais, o autor aprende a reconhecer o que lhe pertence e o que ainda é apenas ressonância de influências. Nesse ponto, a técnica atua como filtro e refinamento: ela não apaga referências, mas ajuda a integrá-las de modo orgânico. O resultado é a construção de uma singularidade assumida, não de uma padronização disfarçada.
Essa singularidade provoca um deslocamento importante na forma de encarar o processo de escrita. Escrever deixa de ser um evento isolado e passa a ser compreendido como trabalho contínuo. O texto nasce imperfeito, cresce na reescrita e amadurece na revisão. Cortar, reorganizar, testar novas soluções formais faz parte do gesto criativo tanto quanto a primeira versão. Muitos dos grandes livros da literatura são frutos menos de lampejos repentinos e mais de insistência, paciência e escuta atenta do próprio texto. Escrever bem, em grande medida, é saber reescrever.

Existe mais do que técnica nessa singularidade chamada escrita criativa
Todo esse percurso exige algo que ultrapassa a técnica: atenção ao mundo. É nesse ponto que reside um dos grandes valores de se estudar o que outros escritores compartilham. Escritores atentos observam pessoas, ambientes, discursos, gestos mínimos. A escrita criativa desenvolve esse olhar treinado, capaz de perceber conflito onde há aparente normalidade, tensão onde existe silêncio, história onde outros veem apenas rotina. A inspiração, nesse contexto, surge como consequência do envolvimento constante com o ato de observar e escrever, e não como um acontecimento externo e imprevisível.
Com o tempo, quem se dedica ao estudo da escrita criativa percebe que seu papel central é formular boas perguntas. Perguntas que tensionam o texto e, ao mesmo tempo, transformam o autor: por que esta cena existe, o que se altera depois dela, o que este personagem realmente deseja, qual tema atravessa a narrativa mesmo quando não é explicitado. Essas questões refinam a escrita e afiam o olhar crítico, tornando o processo menos impulsivo e mais intencional, sem que se perca a força emocional da história.
Talvez por isso seja mais adequado pensar a escrita criativa como uma travessia. Um caminho em que o autor avança entre técnica e intuição, método e risco, controle e descoberta. Não há atalhos confiáveis, mesmo quando se dispõe de mapas. A escrita criativa oferece esses mapas com a consciência de que nenhum deles substitui a caminhada; servem apenas para evitar que o autor caminhe em círculos.
No fim, o “bicho” da escrita criativa revela-se menos exótico do que parece. Ele vive do encontro entre conhecimento e prática, leitura atenta e escrita persistente. Não promete genialidade, mas oferece clareza. Não assegura resultados imediatos, mas constrói bases sólidas. E, sobretudo, reafirma que contar histórias é um ofício complexo, exigente e profundamente humano — um trabalho que se aprende fazendo, pensando e refazendo, texto após texto.




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