O incontestável mestre da literatura brasileira, Machado de Assis foi ardiloso como criador de tramas envolventes e personagens inesquecíveis, cínico e preciso com as palavras e o jogo amoral da narrativa, e extrapolou o realismo literário de sua era flertando com o assombroso, o impossível, o gótico, o medo das coisas que não estão visíveis.
Para esta enervante coleção de histórias macabras, a Tramatura selecionou sete histórias publicadas originalmente entre 1870 e 1906. Ao longo desses trinta e seis anos, entre o fantasioso A Vida Eterna e o desolador Pai Contra Mãe, Machado ousou temas tão humanos que o sobrenatural se torna a alegoria dos dramas comuns do cotidiano — como a cínica e assustadora história de fantasmas de Sem Olhos. Ou o horror da imortalidade que depende da morte do narrador. Talvez o amor doentio de um cientista apaixonado por sua primeira esposa, morta por suas próprias mãos e cujo esqueleto... bom, é melhor você ler.
Em A vida eterna, o doutor Camilo da Anunciação recebe uma inusitada visita, um estranho e rico comerciante que praticamente invade sua casa e o coage a se casar com sua belíssima filha, mas há algo de muito estranho em toda aquela situação!
Certa noite, numa roda de amigos, um deles conta aquela estranha história de um professor de alemão que mantinha o esqueleto da primeira esposa guardado em sua casa, mesmo depois de casado pela segunda vez. Em Um esqueleto, Machado de Assis viaja entre a loucura e as estranhas relações dos homens com a morte.
Sem olhos traz o estilo de história imortalizada por Henry James em "A volta do parafuso", em que um respeitável representante da sociedade toma a palavra em uma reunião frugal e passa a narrar uma terrível história de traição, vingança e... fantasmas!
Uma poção indígena capaz de tornar imortal quem a bebe? Esse é o menor dos espantos de O imortal, que torna o elemento mágico simplesmente insignificante diante do tédio de sua maldição.
O diabo, um belo dia, decide criar uma religião! Define seus dogmas sem dogmas, suas leis sem leis e suas liberalidades inquestionáveis! Machado de Assis narra magistralmente a fantástica empreitada do ser que, diante de Deus, não compreende o que pode dar errado com A igreja do diabo.
Em A causa secreta, Fortunato parece sentir prazer diante do sofrimento alheio. Sua crueldade excessiva com pessoas e animais é posta à prova na casa de saúde em que é sócio e precisa lidar com feridos e enfermos.
Pai contra mãe nos apresenta a Cândido Neves, que ganha a vida capturando escravos fugitivos e sofre com a família na pobreza da renda incerta. O momento da verdade se apresenta quando ele precisa se decidir entre suas necessidades mais básicas e o que sente pelas pessoas que, como ele, só estão buscando viver.
Portanto, deleite-se com o mais clássico dos escritores brasileiros, o Bruxo do Cosme Velho, que está aqui hoje para arrancar arrepios e estranhezas do mais cético dos leitores. E fazer deliciar os adoradores de histórias fantásticas.

































