O PULP existiu no Brasil?
- Jefferson Sarmento
- 21 de abr.
- 7 min de leitura
A história esquecida das revistas de emoção
Durante décadas, um tipo muito específico de literatura ocupou silenciosamente as bancas de jornais aqui no Brasil. Eram revistas de papel simples, impressão econômica e capas chamativas, recheadas de histórias policiais, aventuras, crimes, mistérios e episódios sobrenaturais. Sim... se você costuma seguir as nossas publicações pulp, aqui na Tramatura, você pegou a ideia.
Essas revistas, aqui no Brasil, circulavam com regularidade, tinham público fiel e faziam parte do cotidiano urbano de leitores que consumiam esse material como entretenimento rápido e acessível. Ainda assim, esse universo permaneceu à margem da história literária oficial, raramente sendo incorporado às narrativas mais amplas sobre a formação da cultura escrita no país. Estamos falando de um movimento que, visto agora, de longe no tempo (se você me permite a metáfora espaço/tempo), parece fragmentado e esparso, mas que estava ali, entre os anos 1930 e 1960...
Mas... o Brasil teve um movimento pulp comparável ao dos Estados Unidos? Para responder a isso precisamos ter cuidado. Existem sim evidências claras de um mercado ativo, com publicações duradouras e circulação consistente, mas também há diferenças estruturais que impedem uma comparação direta entre mercados e movimentos. Para compreender essas diferenças, precisamos olhar um pouquinho mais de perto e com atenção aquilo que, no Brasil, recebeu um nome próprio e revelador: as Revistas de Emoção.
Revistas de Emoção: o nome brasileiro do pulp
O termo “revistas de emoção” foi utilizado para designar um conjunto de publicações populares que circularam no

Brasil principalmente entre as décadas de 1930 e 1960. A expressão aparece em pesquisas como as de Athos Eichler Cardoso (1934-2021), estudioso da literatura popular brasileira, mais conhecido por seu trabalho com histórias em quadrinhos da Era de Ouro, mas que também se dedicou a mapear esse circuito editorial pulp brasileiro.
As revistas de emoção reuniam narrativas de crime, suspense, horror e aventura, com forte apelo sensacionalista e linguagem muito direta. O modelo gráfico e editorial dialogava com as pulps norte-americanas, mas o contexto brasileiro impôs adaptações próprias, tanto na produção quanto na circulação.
Um dos aspectos centrais desse mercado foi a predominância de traduções, especialmente de autores estrangeiros, o que influenciou diretamente a percepção do gênero. A presença de material importado ajudava a consolidar o formato, mas ao mesmo tempo limitava o desenvolvimento de uma identidade autoral brasileira mais evidente nesse campo. Roberto de Sousa Causo, importantíssimo escritor e pesquisador de ficção científica brasileira, observa que o país não desenvolveu um sistema industrial comparável ao dos Estados Unidos, o que contribuiu para a ideia de que o pulp nacional teria sido menos estruturado e mais fragmentado.
Ainda assim, esse conjunto de revistas formou um ecossistema reconhecível, com padrões editoriais, temas recorrentes e um público específico. O que se vê é um modelo que não se organizou como movimento literário formal, com manifestos ou grupos definidos, mas que funcionou de maneira bastante consistente ao longo de várias décadas. A força desse circuito está justamente nessa regularidade estranhamente silenciosa; uma produção contínua que sustentou leitores, autores e editoras, mesmo sem ocupar espaço central no debate cultural mais amplo.
Quase como se não existisse aos olhos da cultura literária mainstream.
As revistas e o mercado: onde o pulp brasileiro realmente existiu

Entre as publicações que estruturaram esse circuito, algumas se destacam tanto pela longevidade quanto pelo impacto no público. A revista Detective, lançada em 1936, tornou-se uma das mais importantes do gênero no país, mantendo circulação por quase três décadas e alcançando centenas de edições. Ao lado dela, títulos como X-9 e Contos Magazine ajudaram a consolidar um repertório de leitura baseado em narrativas policiais e de suspense. Esses periódicos não apenas ocupavam espaço nas bancas, mas também criavam hábitos de consumo regulares, com leitores que acompanhavam séries, personagens e estilos narrativos.
A revista X-9, publicada a partir de 1941 pela Rio Gráfica Editora, é um exemplo claro do alcance desse fenômeno. Seu sucesso foi tão significativo que o nome da revista passou a ser usado como sinônimo genérico para esse tipo de publicação, independentemente do título específico. A origem do termo remete ao personagem Secret Agent X-9, agente secreto das tiras norte-americanas dos anos 1930, cuja associação com investigação e informação confidencial acabou sendo absorvida pelo público brasileiro. Com o tempo, “X-9” se incorporou ao vocabulário popular como gíria para designar informantes ou delatores, alcançando um nível de difusão cultural que extrapola o universo editorial; hoje, o termo está tão sedimentado na língua que chega a nomear até uma das escolas de samba mais importantes do carnaval paulista.
O conjunto dessas revistas revela um sistema editorial funcional, com lógica própria de produção e distribuição. Havia regularidade nas publicações, diversidade temática dentro de um mesmo espectro e uma clara segmentação de público. Mesmo sem o volume industrial das pulps norte-americanas, o Brasil desenvolveu um mercado consistente de literatura popular de gênero. Esse mercado operava com eficiência dentro de suas condições, criando uma cultura de leitura específica que se sustentou por décadas e deixou marcas perceptíveis na memória editorial do país.

Autores, pseudônimos e a divisão cultural do período

O funcionamento desse mercado editorial revela uma tensão importante dentro da cultura brasileira do período. Um exemplo emblemático é o de Patrícia Galvão (1910–1962), mais conhecida por seu carinhoso apelido Pagu (nome que o poeta Raul Bopp (1898-1984) deu a ela porque confundiu seu sobrenome com Goulart). Escritora, jornalista, feminista, uma figura estreitamente ligada ao modernismo paulista, Pagu publicou, na década de 1940, vários contos policiais na revista Detective sob o pseudônimo “King Shelter”. A escolha não foi casual. O gênero policial era visto como literatura de menor prestígio, e a presença de nomes estrangeiros era valorizada nesse tipo de publicação. O pseudônimo funcionava como uma forma de inserção nesse circuito, ao mesmo tempo em que evidencia a separação simbólica entre literatura reconhecida e produção popular.
Outro nome central nesse cenário é o do mestre Rubens Francisco Lucchetti (1930-2024), autor extremamente prolífico que atuou em diversas frentes da literatura de gênero. Lucchetti escreveu para revistas como X-9, Detective e Meia-Noite, além de produzir roteiros e histórias em diferentes formatos: é dele o roteiro de filmes como As Sete Vampiras (1986) e O Escorpião Escarlate (1990), de Ivan Cardoso. A trajetória de Lucchetti ilustra um tipo específico de profissional da escrita, adaptado às demandas do mercado e capaz de transitar entre temas como horror, policial e ficção científica. Diferentemente de Pagu, que atravessa esse universo a partir de outro campo literário, ele representa uma inserção direta e contínua no circuito das publicações populares.

Esses dois casos nos ajudam a entender uma característica fundamental do pulp brasileiro: a coexistência de diferentes níveis de reconhecimento dentro do mesmo sistema. Enquanto alguns autores utilizavam pseudônimos para publicar nesse mercado, outros construíam suas carreiras inteiramente dentro dele. É uma dinâmica que revela a ampla divisão cultural em que a literatura de gênero circulava por aqui: com força entre os leitores, mas enfrentando resistência no campo crítico e institucional. O resultado é um cenário em que a produção existia de forma consistente, mas com visibilidade desigual e reconhecimento limitado.
Transformações e permanências:
o pulp no Brasil além das revistas
A partir do final dos anos 1950 e ao longo da década de 1960, o modelo clássico das revistas de emoção começa a perder espaço, acompanhando mudanças mais amplas no mercado editorial e nos hábitos de leitura. Novos formatos, como publicações de bolso e coleções especializadas, passam a ocupar esse território, enquanto parte do público migra para outros meios, como o rádio, o cinema e, posteriormente, a televisão. Esse processo não representa uma ruptura abrupta, mas uma transformação gradual, em que os elementos do pulp continuam a circular sob outras formas e em novos contextos.
Nesse momento de transição, figuras como Jerônymo Monteiro (1908-1970) ganham relevância ao organizar e incentivar a produção de ficção científica no país. Atuando como escritor e editor, Monteiro esteve à frente de iniciativas como a Magazine de Ficção Científica, publicado no início da década de 1970, que abriu espaço para autores brasileiros e contribuiu para consolidar o gênero em um novo patamar. Sua atuação marca uma mudança importante, deslocando a literatura de gênero de um circuito predominantemente baseado em traduções para uma produção mais consciente e nacional.
O que se observa, portanto, é um processo de continuidade sob transformação. O pulp brasileiro não desaparece com o fim das revistas mais tradicionais; ele se reorganiza, assume novas formas e encontra outros meios de circulação. Elementos como a narrativa direta, o foco na ação e a construção de histórias seriadas permanecem ativos, influenciando tanto a produção literária quanto outras manifestações culturais. Essa persistência indica que, embora o formato tenha mudado, a lógica narrativa e o apelo popular dessas histórias continuaram a fazer parte do repertório cultural brasileiro.
Uma tradição que existiu... sem um nome reconhecível
A pergunta inicial sobre a existência de um movimento pulp no Brasil conduz a uma resposta que exige precisão. O país não desenvolveu um movimento estruturado nos moldes norte-americanos, com escala industrial, forte presença autoral e reconhecimento consolidado. Ainda assim, formou-se um circuito editorial ativo, com publicações regulares, público definido e produção contínua ao longo de várias décadas. Esse conjunto de revistas e autores constitui uma tradição específica, marcada por adaptações locais e por um funcionamento menos centralizado.
O pulp no Brasil existiu como prática cultural, sustentado por um sistema editorial fragmentado e por uma circulação intensa nas bancas, mas sem se consolidar como categoria reconhecida dentro da história literária oficial. Essa condição ajuda a explicar por que essas publicações permaneceram por tanto tempo fora do debate crítico, mesmo tendo desempenhado um papel relevante na formação de leitores e na difusão da literatura de gênero. Ao revisitar esse material, é possível perceber que essa produção não apenas existiu, mas deixou marcas duradouras na cultura escrita do país.



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