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O Diabo e Daniel Webster

Foto do escritor: Tramatura
Tramatura
há 6 minutos
23 min de leitura

Um conto de Stephen Vincent Benét


O Diabo e Daniel Webster - parte 1

I

É uma história que contam na região fronteiriça, onde Massachusetts faz divisa com Vermont e New Hampshire.

Sim, Dan’l Webster está morto — ou, pelo menos, o enterraram. Mas dizem que toda vez que há uma tempestade com trovões em Marshfield, dá para ouvir a voz grave dele ecoando no céu. E dizem que se você for até o túmulo dele e falar alto e claro “Dan’l Webster! Dan’l Webster!” — a terra começará a tremer e as árvores a balançar. E depois de um tempo, você ouvirá uma voz grave perguntando:

— Vizinho, como está a União?

Então é melhor você responder que a União permanece como sempre esteve, com o fundo rochoso e o revestimento de cobre, una e indivisível, ou ela corre o risco de se erguer do chão. Pelo menos, foi isso que me disseram quando eu era criança.

Veja bem, por um tempo, ele foi o homem mais importante do país. Nunca chegou a ser presidente, mas era o homem mais importante. Havia milhares que confiavam nele quase como a Deus Todo-Poderoso, e contavam histórias sobre ele e tudo o que lhe pertencia, histórias que lembravam as de patriarcas e outros grandes nomes. Diziam que, quando ele se levantava para falar, estrelas e listras surgiam no céu, e que certa vez ele discursou contra um rio e o fez afundar na terra. Diziam que, quando caminhava pela mata com sua vara de pescar, Killall, as trutas saltavam dos riachos direto para a sua bolsa, pois sabiam que era inútil lutar contra ele; e, quando argumentava em uma causa, ele podia fazer soar as harpas dos bem-aventurados e o chão tremer.

Esse era o tipo de homem que ele era, e sua grande fazenda em Marshfield era perfeita para ele. As galinhas que ele criava eram todas de carne branca até as coxas, as vacas eram tratadas como crianças, e o grande carneiro que ele chamava de Golias tinha chifres com uma curvatura como a de uma trepadeira de ipomeia e podia arrombar uma porta de ferro. Mas Dan’l não era um fazendeiro qualquer, ele conhecia todos os segredos da terra e ficava acordado, mesmo se fosse precisa a luz das velas, para garantir que as tarefas fossem terminadas. Um homem com a boca como um mastim, a testa como uma montanha e os olhos como antracito em chamas — esse era Dan’l Webster em seu auge. E o caso mais importante que ele defendeu nunca foi registrado, pois ele o defendeu contra o diabo, com unhas e dentes e sem titubear.

E era assim que eu costumava ouvir a história:

Havia um homem chamado Jabez Stone, que morava em Cross Corners, New Hampshire. Ele não era uma má pessoa, mas era um homem azarado. Se plantava milho, tinha brocas; se plantava batatas, tinha requeima. Tinha terras boas o suficiente, mas não prosperavam; tinha uma esposa e filhos decentes, mas quanto mais filhos tinha, menos havia para alimentá-los. Se pedras apareciam no campo dos vizinhos, pedregulhos surgiam no dele; se tinha um cavalo com esparavão, trocava-o por um com espasmos e pagava um extra por ele. Há pessoas que são assim mesmo, aparentemente. Mas um dia, Jabez Stone cansou-se de tudo aquilo.

Ele estava arando naquela manhã e acabara de quebrar a relha numa pedra que jurava não ter estado ali no dia anterior. E, enquanto olhava para a relha, o cavalo que estava ao lado começou a tossir — aquela tosse rouca que significa doença e veterinário. Havia duas crianças com sarampo, sua esposa estava doente e ele tinha um panarício no polegar. Foi a gota d'água para Jabez Stone.

— Eu juro — disse ele, olhando em volta com um ar desesperado —, eu juro que isso é suficiente para fazer um homem querer vender a alma ao diabo. E eu também venderia, por dois centavos!

Então, sentiu uma espécie de estranheza o invadir por ter dito o que dissera — embora, naturalmente, sendo um homem de New Hampshire, não fosse do tipo que aceita se retratar. Mas, mesmo assim, quando chegou a noite e, pelo que pôde ver, ninguém havia notado, sentiu-se aliviado, pois era um homem religioso. Mas as pessoas sempre notam, mais cedo ou mais tarde, como diz a Bíblia. E, de fato, no dia seguinte, por volta da hora do jantar, um estranho de voz suave e vestes escuras chegou numa elegante charrete e perguntou por Jabez Stone.

Bem, Jabez disse à família que era um advogado, que tinha vindo vê-lo por causa de uma herança. Mas ele sabia quem era. Não gostou da aparência do estranho, nem do jeito como ele sorriu mostrando os dentes.

Eram dentes brancos e numerosos — alguns dizem que eram afiados e pontiagudos, mas eu não posso dar certeza disso. E ele não gostou quando o cachorro olhou para o estranho e saiu correndo uivando, com o rabo entre as pernas.

Contudo, tendo dado sua palavra, ele mais ou menos a cumpriu, e eles foram para trás do celeiro e selaram o acordo. Jabez Stone teve que furar o dedo para assinar, e o estranho lhe emprestou um alfinete de prata. O ferimento cicatrizou completamente, mas deixou uma pequena cicatriz branca.


O Diabo e Daniel Webster - parte 2

II

Foi logo depois disso que, de repente, as coisas começaram a melhorar e prosperar para Jabez Stone. Suas vacas engordaram e seus cavalos tornaram-se viçosos, suas plantações eram a inveja da vizinhança, e raios podiam cair por todo o vale, mas não atingiam seu celeiro. Logo, ele era uma das pessoas mais prósperas do condado. Pediram que ele se candidatasse a vereador, e ele se candidatou. Começaram a falar em sua candidatura à Câmara estadual. Resumindo, pode-se dizer que a família Stone vivia dias tão felizes e estava tão satisfeita com tudo quanto gatos em um estábulo. E assim eram, exceto por Jabez Stone.

Nos primeiros anos, ele até havia se sentido bastante contente com a situação. É ótimo quando a má sorte vira. Ela expulsa quase todos os outros problemas da sua cabeça. É verdade que, de vez em quando, principalmente em dias de chuva, a pequena cicatriz branca em seu dedo lhe dava uma pontada. E uma vez por ano, pontualmente como um relógio, o estranho com a bela charrete passava. Mas no sexto ano, o estranho parou, e, depois disso, a paz de Jabez Stone acabou.

O forasteiro veio subindo pelo campo mais baixo, dando leves batidas nas botas com a bengala. Eram belas botas pretas, mas Jabez Stone nunca gostou da aparência delas, principalmente dos bicos. E, depois de trocar algumas palavras, disse:

— Ora, Sr. Stone, o senhor me parece muito bem! É uma propriedade muito bonita que o senhor tem aqui, Sr. Stone.

— Bem, alguns acham tudo isso e outros não — respondeu Jabez Stone, pois ele era de New Hampshire.

— Ah, não se preocupe com o que dizem! — disse o estranho, com muita tranquilidade, mostrando os dentes em um sorriso. — Afinal, sabemos o que foi feito, e tudo foi feito conforme nosso contrato e suas especificações. Então, quando... hum... a hipoteca vencer no ano que vem, você não terá do que se arrepender.

— Por falar nessa hipoteca, senhor — disse Jabez Stone, e olhou em volta buscando ajuda na terra e no céu —, estou começando a ter uma ou duas dúvidas a respeito.

— Dúvidas? — retrucou o estranho, num tom não muito amigável.

— Sim, claro — disse Jabez Stone. — Afinal, estamos nos Estados Unidos e eu sempre fui um homem religioso. — Ele pigarreou e se mostrou mais ousado. — Então, sim, senhor, estou começando a duvidar da validade dessa hipoteca perante o tribunal.

— Há tribunais e tribunais — disse o estranho, estalando os dentes. — Mesmo assim, podemos dar uma olhada no documento original. — E tirou de dentro do casaco uma grande carteira preta, cheia de papéis. — Sherwin, Slater, Stevens, Stone... — murmurou. — Eu, Jabez Stone, por um mandato de sete anos... Ah, está tudo em ordem, creio.

Mas Jabez Stone não estava prestando atenção, pois viu outra coisa sair voando da carteira preta. Era algo que parecia uma mariposa, mas não era uma mariposa. E enquanto Jabez Stone a encarava, pareceu falar com ele com uma voz fina e aguda, terrivelmente pequena e delicada, mas terrivelmente humana.

— Vizinho! — guinchou. — Senhor Stone! Socorro! Pelo amor de Deus, me ajude!

Mas antes que Jabez Stone pudesse se mexer, o estranho sacou um grande lenço, prendeu a criatura nele, como quem captura uma borboleta, e começou a amarrar as pontas do lenço.

— Desculpe-me pela interrupção — disse ele. — Como eu estava dizendo...

Mas Jabez Stone tremia todo, como um cavalo assustado.

— Essa é a voz do Miser Stevens! — estranhou ele, com a voz rouca. — E você o tem no seu lenço!

O estranho pareceu um pouco envergonhado.

— Sim, eu já deveria tê-lo transferido para a caixa de coleta — respondeu com um sorriso irônico —, mas já há alguns espécimes bastante incomuns por lá e eu não queria que ficassem todos amontoados. Bem, bem, esses pequenos contratempos acontecem.

— Não sei o que você quer dizer com esse negócio de contratempo — disse Jabez Stone —, mas essa era a voz do Miser Stevens! E ele num tá morto! Não me diga que está! Ele me pareceu tão ágil e tão malvado quanto uma marmota, na terça-feira!

— Ele está... meio vivo — disse o estranho, com um tom algo piedoso. — Escute! — Então um sino começou a tocar no vale e Jabez Stone escutou, com o suor escorrendo pelo rosto. Pois ele sabia que o sino tocava pelo Miser Stevens e que ele estava morto.

— Essas dívidas antigas! — comentou o estranho com um suspiro. — É realmente difícil liquidá-las. Mas negócios são negócios.

Ele ainda tinha o lenço na mão, e Jabez Stone sentiu um enjoo ao ver o tecido se debater e esvoaçar.

— São todos tão pequenos assim? — perguntou ele com a voz rouca.

— Pequenos? — devolveu o estranho. — Ah, entendi o que quer dizer. Bem, eles variam. — Ele avaliou Jabez Stone com os olhos, e seus dentes apareceram. — Não se preocupe, Sr. Stone — disse ele. — O senhor terá uma classificação muito boa. Eu não confiaria no senhor fora da caixa de coleta, por exemplo. Agora, um homem como Dan’l Webster, é claro... bem, teríamos que construir uma caixa especial para ele, e mesmo assim, imagino que a envergadura das asas o surpreenderia. Ele certamente seria um prêmio e tanto! Gostaria que pudesse ter uma ideia de como ele é valioso. Mas, no seu caso, como eu estava dizendo...

— Guarde esse lenço! — disse Jabez Stone, e começou a implorar e a rezar. Mas o melhor que conseguiu no final foi uma prorrogação de três anos, com algumas condições.

Mas até você fazer um acordo desses, não tem ideia de como quatro anos podem passar rápido. Nos últimos meses desses anos, Jabez Stone já era conhecido em todo o estado e falavam em sua candidatura a governador — e isso lhe causava repulsa. Pois todos os dias, ao acordar, ele pensava: Mais uma noite se passou — e todas as noites, ao se deitar, pensava naquela carteira preta e na alma de Miser Stevens, e isso lhe dava náuseas. Até que, finalmente, ele não aguentou mais e, nos últimos dias do último ano, atrelou seu cavalo e partiu em busca de Dan’l Webster. Pois Dan’l nascera em New Hampshire, a poucos quilômetros de Cross Corners, e era sabido que ele tinha um carinho especial por antigos vizinhos.


O Diabo e Daniel Webster - parte 3

III

Era o alvorecer quando ele chegou a Marshfield, mas Dan’l já estava de pé, conversando em latim com os trabalhadores da fazenda, lutando com o carneiro Golias, testando um novo cavalo de trote e preparando discursos para apresentar contra John C. Calhoun. Mas quando soube que um homem de New Hampshire tinha vindo vê-lo, largou tudo o que estava fazendo, pois esse era o jeito de Dan’l. Ofereceu a Jabez Stone um café da manhã que cinco homens não conseguiriam comer, contou a história de vida de cada homem e mulher de Cross Corners e, por fim, perguntou-lhe como poderia servi-lo.

Jabez Stone admitiu que se tratava de uma espécie de caso hipotecário.

— Bem, faz muito tempo que não defendo um caso de hipoteca, e geralmente não defendo mais, exceto perante a Suprema Corte — disse Dan’l. — Mas se eu puder, ajudarei você.

— Então, pela primeira vez em dez anos, tenho esperança — disse Jabez Stone, e contou-lhe os detalhes.

Dan’l caminhava de um lado para o outro enquanto ouvia, mãos atrás das costas, fazendo perguntas de vez em quando, e lançando olhares fulminantes para o chão, como se o atravessassem com a precisão de uma verruma. Quando Jabez Stone terminou, Dan’l inflou as bochechas e soprou. Então, virou-se para Jabez Stone e um sorriso iluminou seu rosto como o nascer do sol sobre Monadnock.

— Você realmente se meteu numa enrascada daquelas, vizinho Stone — disse ele. — Mas eu aceito o seu caso.

— Você vai aceitar? — disse Jabez Stone, quase sem coragem para acreditar.

— Sim — disse Dan’l Webster. — Tenho umas setenta e cinco outras coisas para fazer e o Compromisso do Missouri para resolver, mas aceitarei seu caso. Porque se dois homens de New Hampshire não são páreo para o diabo, podemos muito bem devolver o país aos índios.

Então ele apertou a mão de Jabez Stone e disse:

— Quanto tempo levou pra chegar aqui? Foi rápido?

— Bem, não. Admito que levei um bom tempo — respondeu Jabez Stone.

— Daremos um jeito de voltar mais rápido — disse Dan’l Webster, e mandou que atrelassem Constitution e Constellation à carruagem. Eram cavalos cinzentos idênticos, com uma pata dianteira branca, e andavam como um raio.

Bem, não vou descrever a alegria e o entusiasmo de toda a família Stone ao receber o ilustre Dan’l Webster como convidado, quando finalmente chegaram. Jabez Stone havia perdido o chapéu no caminho, levado por uma rajada de vento, mas não deu muita importância a isso. Após o jantar, porém, mandou a família para a cama, pois tinha um assunto muito importante a tratar com o Sr. Webster. A Sra. Stone queria que se sentassem na sala de estar, mas Dan’l Webster disse que preferia a cozinha. E lá ficaram sentados, esperando o forasteiro, com uma jarra sobre a mesa entre eles e uma lareira acesa — o forasteiro deveria chegar à meia-noite em ponto, conforme combinado.

Bem, a maioria dos homens não teria pedido companhia melhor do que Dan’l Webster e uma jarra. Mas a cada segundo que passava, Jabez Stone ficava mais e mais triste. Seus olhos percorriam o ambiente, e embora ele provasse da jarra, dava para ver que não conseguia sentir o gosto. Finalmente, às onze e meia da noite, ele estendeu a mão e agarrou Dan’l Webster pelo braço.

— Sr. Webster, Sr. Webster! — implorou ele, e sua voz tremia de medo e desesperada coragem. — Pelo amor de Deus, Sr. Webster, arreie seus cavalos e fuja deste lugar enquanto pode!

— Você me trouxe de tão longe, vizinho, para me dizer que não gosta da minha companhia — disse Dan’l Webster, com um tom bastante tranquilo, dando uma boa golada na jarra.

— Miserável criatura que sou! — gemeu Jabez Stone. — Estou arrastando o senhor para um caminho diabólico, e agora percebo minha tolice. Que ele me leve, se quiser. Não anseio por isso, devo dizer, mas posso suportar. Mas você é o pilar da União e o orgulho de New Hampshire! Ele não pode te pegar, Sr. Webster! Ele não pode ficar com o senhor!

Dan’l Webster olhou para o homem desesperado à sua frente, todo pálido e trêmulo à luz da fogueira, e colocou a mão em seu ombro.

— Agradeço-lhe imensamente por sua preocupação, vizinho Stone — reconheceu ele gentilmente. — Mas considere esta uma gentileza da minha parte. Há uma jarra sobre a mesa e uma caneca em minha mão. E eu nunca deixei uma jarra ou uma caneca pela metade em toda a minha vida.

E naquele exato momento ouviu-se uma batida seca na porta.

— Ah — disse Dan’l Webster, com muita frieza —, achei que seu relógio estivesse um pouco atrasado, vizinho Stone. — Ele caminhou até a porta e a abriu. — Entre — pediu. O estranho entrou, parecendo um tanto sombrio e bastante alto à luz da lareira. Ele carregava uma caixa debaixo do braço — uma caixa preta, laqueada, com pequenos furos na tampa. Ao ver a caixa, Jabez Stone soltou um grito baixo e se encolheu num canto da cozinha.

— Sr. Webster, presumo — disse o estranho, muito educado, mas com os olhos brilhando como os de uma raposa no meio da floresta.

— Advogado constituído de Jabez Stone — disse Dan’l Webster, mas seus olhos também brilhavam. — Posso perguntar seu nome?

— Já passei por situações como esta, então... — disse o estranho displicentemente. — Talvez Scratch sirva para esta noite. Costumam me chamar assim por estas bandas.

Então ele se sentou à mesa e se serviu de uma bebida da jarra.

A bebida estava fria, mas saiu fumegante para o copo.

— E agora — disse o estranho, sorrindo e mostrando os dentes —, eu peço a você, como cidadão cumpridor da lei, que me ajude a retomar a posse da minha propriedade.

E com isso começou a discussão — e ficou acalorada. A princípio, Jabez Stone teve uma réstia de esperança, mas quando viu Dan’l Webster sendo pressionado ponto após ponto, ele simplesmente se encolheu em seu canto, com os olhos fixos naquela caixa laqueada. Pois não havia dúvida alguma quanto à escritura ou à assinatura — esse era o pior de tudo. Dan’l Webster se contorcia e batia com o punho na mesa, mas não conseguia uma brecha naquela situação. Ele se ofereceu para negociar um acordo; o estranho não quis nem ouvir falar nisso. Ele argumentou que a propriedade havia se valorizado e que representantes estaduais deveriam valer mais; o estranho se ateve à letra da lei. Ele era um grande advogado, Dan’l Webster, mas sabemos quem é o Rei dos Advogados, como nos diz a Bíblia, e parecia que, pela primeira vez, Dan’l Webster havia encontrado alguém à sua altura.

Por fim, o estranho bocejou levemente.

— Seus esforços vigorosos em nome de seu cliente lhe são louváveis, Sr. Webster — comentou ele. — Mas se o senhor não tem mais argumentos a apresentar, estou com pouco tempo.

E Jabez Stone estremeceu.

A testa de Dan’l Webster estava escura como uma nuvem de tempestade.

— Com tempo ou sem tempo, você não terá este homem — trovejou ele. — O Sr. Stone é um cidadão americano, e nenhum cidadão americano pode ser forçado a servir um príncipe estrangeiro. Lutamos contra a Inglaterra por isso em 1812 e lutaremos com todas as nossas forças por isso novamente!

— Estrangeiro? — perguntou o forasteiro. — E quem me chama de estrangeiro?

— Bem, eu nunca ouvi falar de você reivindicar a cidadania americana — disse Dan’l Webster, surpreso.

— E quem tem mais direito? — disse o forasteiro, com um de seus sorrisos terríveis. — Quando o primeiro mal foi perpetrado contra primeiro indígena, eu estava lá. Quando o primeiro navio negreiro zarpou para o Congo, eu estava em seu convés. Não estou em seus livros, histórias e crenças, desde os primeiros assentamentos? Não se fala de mim, ainda hoje, em todas as igrejas da Nova Inglaterra? É verdade que o Norte me reivindica como sulista, e o Sul como nortista, mas não sou nenhum dos dois. Sou apenas um americano honesto como o senhor — e da melhor linhagem —, pois, para dizer a verdade, Sr. Webster, embora eu não goste de me gabar, meu nome é mais antigo neste país que o seu.

— Aha! — ironizou Dan’l Webster, com as veias saltando na testa. — Então eu me baseio na Constituição! Exijo um julgamento para o meu cliente!

— Este caso dificilmente se enquadra numa corte comum — disse o estranho, com os olhos faiscando. — E, de fato, o horário avançado...

— Que seja qualquer tribunal que você escolha, contanto que seja um juiz americano e um júri americano! — disse Dan’l Webster orgulhosamente. — Que sejam os vivos ou os mortos; eu aceitarei o resultado!

— Que seja feita a sua vontade — disse o estranho, apontando o dedo para a porta. E com isso, de repente, ouviu-se um sopro de vento lá fora e o ruído de passos. Eles vinham, claros e distintos, através da noite. E, no entanto, não eram como os passos de homens vivos.

— Em nome de Deus, quem há de ser, tão tarde? — exclamou Jabez Stone, tomado pelo medo.

— O júri que o Sr. Webster exige — disse o estranho, dando um gole em seu copo fervente. — O senhor deve perdoar a aparência rude de um ou dois; eles devem ter vindo de muito longe.


O Diabo e Daniel Webster - parte 4

IV

E com isso, o fogo ardeu em azul, a porta se abriu com um estrondo e doze homens entraram, um a um.

Se Jabez Stone já havia sido tomado pelo terror antes, agora estava cego de medo. Pois ali estava Walter Butler, o lealista, que espalhara fogo e horror pelo Vale do Mohawk nos tempos da Revolução; e ali estava Simon Girty, o renegado, que viu homens brancos serem queimados na fogueira e vibrou com os índios ao vê-los queimar. Seus olhos eram verdes, como os de uma onça-parda, e as manchas em sua camisa de caça não eram de sangue de veado. O Rei Filipe estava lá, selvagem e orgulhoso como em vida, com o grande corte na cabeça que lhe causara a morte; e o cruel Governador Dale, que torturava homens na roda. Ali estava Morton de Merry Mount, que tanto atormentou a Colônia de Plymouth, com seu rosto bonito, ruborizado e desleixado, e seu ódio pelos piedosos. Ali estava Teach, o pirata sanguinário, com sua barba negra encaracolada sobre o peito. O reverendo John Smeet, com suas mãos de estrangulador e sua batina de Genebra, caminhou com a delicadeza que lhe era peculiar até a bancada. A marca vermelha da corda ainda estava em seu pescoço, mas ele carregava um lenço perfumado em uma das mãos. Um a um, eles entraram na sala com o fogo do inferno ainda sobre eles, e o estranho lhes dizia os nomes e seus feitos à medida que chegavam, até que a história dos doze fosse contada. Contudo, o estranho havia dito a verdade — todos eles haviam desempenhado um papel na América.

— Está satisfeito com o júri, Sr. Webster? — disse o estranho em tom de deboche, quando eles já estavam em seus lugares.

O suor escorria pela testa de Dan’l Webster, mas sua voz era clara.

— Bastante satisfeito — disse ele. — Embora sinta falta do General Arnold da companhia.

— Benedict Arnold está ocupado com outros assuntos — justificou-se o estranho, com um olhar sombrio. — Ah, creio que você pediu um juiz.

Ele apontou o dedo mais uma vez, e um homem alto, vestido sobriamente com trajes puritanos, com o olhar ardente de um fanático, entrou na sala e tomou o lugar do juiz.

— O juiz Hathorne é um jurista experiente — disse o estranho. — Ele presidiu alguns julgamentos de bruxas que ocorreram em Salem. Outros se arrependeram depois, mas não ele.

— Arrepender-se de tais prodígios e feitos notáveis? — disse o severo juiz. — Não, enforquem-nos! Enforquem todos! — E passou a murmurar coisas ininteligíveis para si mesmo, de uma forma que gelou a alma de Jabez Stone.

Então o julgamento começou e, como era de se esperar, a situação não estava nada boa para a defesa. E Jabez Stone não se saiu bem como testemunha em sua própria defesa. Ele olhou para Simon Girty e gritou, e tiveram que colocá-lo de volta em seu canto, meio atordoado.

Isso não interrompeu o julgamento, porém.

O julgamento prosseguiu, como todos os julgamentos costumam seguir. Dan’l Webster já havia enfrentado júris rigorosos e juízes implacáveis, mas este era o mais difícil que já enfrentara, e ele sabia disso. Eles estavam sentados ali com um brilho nos olhos, e a voz suave do estranho continuava falando sem parar. Cada vez que ele levantava uma objeção, era “Objeção aceita”, mas sempre que Dan’l objetava, era “Objeção negada”. Bem, não se podia esperar jogo limpo de um sujeito como esse Sr. Scratch.

Aquela situação acabou afetando Dan’l, de tal forma que ele sentiu começar a se exaltar, como ferro na forja. Quando chegasse sua vez e ele se levantasse para falar, sua intenção seria massacrar aquele estranho com todos os truques conhecidos pela lei — e o juiz e o júri também. Não importava mais se seria desacato ao tribunal ou o que aconteceria com ele por isso. Não se importava mais com o que aconteceria com Jabez Stone. Ele ficava cada vez mais furioso, pensando no que diria. E, curiosamente, quanto mais pensava nisso, menos conseguia organizar seu discurso em sua mente.

Até que, finalmente, chegou a hora de se levantar, e ele o fez, pronto para desferir uma saraivada de insultos e denúncias. Mas antes de começar, observou o juiz e o júri por um instante, como era seu costume. E notou que o brilho em seus olhos estava duas vezes mais intenso do que antes, e todos se inclinaram para a frente. Como cães de caça prestes a abocanhar a raposa, eles olharam, e a névoa azul do mal na sala se adensou enquanto ele os observava. Então ele percebeu o que estava prestes a fazer e enxugou a testa, como um homem que acabou de escapar de cair em um buraco no escuro.

Pois era por ele que tinham vindo, não apenas por Jabez Stone. Ele percebeu isso no brilho dos olhos deles e no jeito como o estranho cobriu a boca com uma das mãos. E se lutasse contra eles com as mesmas armas que eles, cairia sob o poder deles; ele sabia disso, embora não pudesse explicar como. Era a sua própria raiva e horror que ardiam nos olhos deles; e ele teria que apagar isso ou o caso estaria perdido. Ficou parado ali por um instante, seus olhos negros queimando como antracito. E então começou a falar.

Ele começou falando em voz baixa, embora cada palavra fosse compreensível. Dizem que ele podia invocar as harpas dos bem-aventurados quando quisesse. E tudo o que dizia soava tão simples e fácil quanto seria possível um homem falar. Mas ele não começou condenando ou insultando. Ele estava falando sobre as coisas que fazem de um país um país e de um homem um homem.

E ele começou com as coisas simples que todos conhecem e sentem — o frescor de uma bela manhã quando se é jovem, o sabor da comida quando se está com fome e o novo dia que é cada dia quando se é criança. Ele tomou cada uma dessas coisas e meditou sobre elas. Eram coisas boas para qualquer homem. Mas, sem liberdade, elas adoeciam. E quando ele falava dos escravizados e das tristezas da escravidão, sua voz se tornava como um grande sino. Ele falava dos primórdios da América e dos homens que construíram aqueles dias. Não foi um discurso grandioso, mas ele poderia fazer qualquer um enxergar com aquelas palavras. Ele admitiu todos os erros que já foram cometidos. Mas mostrou como, do erro e do acerto, do sofrimento e da fome, algo novo surgia. E todos tiveram um papel nisso, até mesmo os traidores.

Então ele se voltou para Jabez Stone. E demonstrou como ele era um homem comum que havia tido azar na vida e que queria mudar sua situação. E, por querer mudar, agora seria punido por toda a eternidade. Mesmo assim, havia bondade em Jabez Stone, e ele a demonstrou. Ele era duro e cruel, de certa forma, mas era um homem. Havia uma certa tristeza em se ser homem, mas isso também era motivo de orgulho. E ele mostrou o que era esse orgulho de uma maneira que era impossível não o sentir. Sim, mesmo no inferno, se um homem fosse homem, você saberia. E ele não estava mais implorando por ninguém em particular, embora sua voz soasse como um órgão. Ele estava contando a história, os fracassos e a jornada interminável da humanidade. Os homens foram enganados, aprisionados e ludibriados, mas a humanidade havia engendrado uma grande jornada. E nenhum demônio que já existiu seria capaz de conhecer e entender a essência dela — era preciso um homem para isso.


O Diabo e Daniel Webster - Parte 5

V

O fogo começou a se extinguir na lareira e o vento, antes do amanhecer, começou a soprar. A luz estava ficando cinzenta no cômodo quando Dan’l Webster terminou. E suas palavras retornaram, ao fim, à terra de New Hampshire, aquele pedaço de terra que cada homem ama e ao qual se apega. Ele pintou um quadro daquilo, e a cada um dos jurados falou de coisas há muito esquecidas. Pois sua voz podia sondar o coração, e esse era seu dom e sua força. Para um, sua voz era como a floresta e seus segredos, para outro, como o mar e suas tempestades; um ouviu nela o clamor de sua nação perdida, e outro viu uma pequena cena inofensiva da qual não se lembrava há anos. Mas cada um viu algo. E quando Dan’l Webster terminou, não sabia se havia ou não salvado Jabez Stone. Mas sabia que havia operado um milagre. Pois o brilho havia desaparecido dos olhos do juiz e do júri, e, por um instante, eles eram homens novamente, e sabiam que eram homens.

— A defesa encerra sua sessão — disse Dan’l Webster, e permaneceu ali parado como uma montanha. Seus ouvidos ainda zumbiam com o próprio discurso, e ele não ouviu mais nada até que o Juiz Hathorne disse:

— O júri se retirará para deliberar sobre o veredicto.

Walter Butler se levantou em seu lugar e seu rosto exibia um orgulho sombrio e alegre.

— O júri deliberou sobre o veredicto — vociferou ele, olhando o estranho diretamente nos olhos. — Julgamos a favor do réu, Jabez Stone.

Com isso, o sorriso desapareceu do rosto do estranho, mas Walter Butler não se abalou.

— Talvez não esteja estritamente de acordo com as evidências — disse ele —, mas até os condenados deveriam saudar a eloquência do Sr. Webster.

Com isso, o longo canto de um galo rasgou o céu cinzento da manhã, e juiz e júri desapareceram da sala como fumaça, como se nunca tivessem estado ali. O estranho se virou para Dan’l Webster, sorrindo ironicamente.

— O Major Butler sempre foi um homem audacioso — disse ele. — Mas é certo que eu não imaginaria quanto. Mesmo assim, ofereço-lhe as minhas congratulações, como deve ser entre dois cavalheiros.

— Primeiro de tudo, quero esse contrato, por favor — disse Dan’l Webster, pegando-o e rasgando-o em quatro pedaços. Estava estranhamente quente ao toque. — E agora... — disse ele —, vou pegar você! — e sua mão desceu como uma armadilha para ursos sobre o braço do estranho. Pois ele sabia que, uma vez que alguém vencesse um adversário como o Sr. Scratch em uma luta justa, o poder exercido pelo Mal sobre o vencedor desapareceria. E ele podia ver que o Sr. Scratch também sabia disso.

O estranho se contorceu e se debateu, mas não conseguiu se livrar daquele aperto.

— Ora vamos, vamos, Sr. Webster — disse ele, com um sorriso pálido. — Esse tipo de coisa é ridículo... ai!... é ridículo. Se o senhor está preocupado com os custos do processo, é claro que terei prazer em pagar...

— E assim será! — disse Dan’l Webster, sacudindo-o até que seus dentes batessem. — Pois você se sentará naquela mesa e redigirá um documento, prometendo nunca incomodar Jabez Stone, nem seus herdeiros ou cessionários, nem qualquer outro homem de New Hampshire até o fim do mundo! Pois qualquer inferno que quisermos criar neste estado, podemos criar nós mesmos, sem a ajuda de estranhos.

— Ai! — disse o estranho. — Ai! Bem, eles nunca foram grandes coisas mesmo, mas... Ai! Eu concordo!

Então ele se sentou e redigiu o documento. Mas Dan’l Webster manteve a mão na gola do casaco o tempo todo.

— E agora, posso ir? — disse o estranho, parecendo bastante humilde, quando Dan’l viu que o documento estava em conformidade com a lei.

— Ir? — disse Dan’l, sacudindo-o novamente. — Ainda estou pensando no que farei com você. Você já quitou as custas do processo, mas não acertou as contas comigo. Acho que vou levá-lo de volta para Marshfield — disse ele, pensativo. — Tenho um carneiro lá chamado Golias que consegue arrombar uma porta de ferro. Gostaria de soltá-lo no campo e ver como ele se comporta.

Bem, com isso, o estranho começou a implorar e suplicar. E implorou e suplicou com tanta humildade que finalmente Dan’l, que era naturalmente uma alma bondosa, concordou em deixá-lo ir. O estranho pareceu extremamente grato por isso e disse, apenas para mostrar que eram amigos, que leria a sorte de Dan’l antes de partir. Então Dan’l concordou, embora normalmente não desse muita importância a videntes.

Naturalmente, há de se convir... o estranho era um pouco diferente. E ele bisbilhotou e examinou atentamente as linhas nas mãos de Dan’l. E contou-lhe uma coisa e outra bastante notáveis. Mas tudo isso já era passado.

— Sim, tudo isso é verdade, e aconteceu — disse Dan’l Webster. — Mas o que o futuro nos reserva?

O estranho sorriu, meio que alegremente, e balançou a cabeça.

— O futuro não é como você pensa — disse ele. — É sombrio. Você tem uma grande ambição, Sr. Webster.

— Sim, eu tenho — disse Dan’l firmemente, pois todos sabiam que ele queria ser presidente.

— Parece estar quase ao seu alcance — disse o estranho —, mas você não conseguirá. Homens inferiores serão eleitos presidentes e você será preterido.

— E, se eu for, continuarei sendo Daniel Webster — disse Dan’l. — Continue.

— Você tem dois filhos fortes — disse o estranho, balançando a cabeça. — Você pretende fundar uma linhagem. Mas ambos morrerão na guerra e nenhum alcançará a grandeza.

— Vivendo ou morrendo, eles ainda são meus filhos — disse Dan’l Webster. — Prossiga.

— Você já fez discursos memoráveis — disse o estranho. — Fará muitos outros.

— Ah — disse Dan’l Webster.

— Mas o seu último grande discurso fará com que muitos dos seus se voltem contra você — disse o forasteiro. — Chamarão você de Ichabod! Chamarão você por outros nomes. Até mesmo na Nova Inglaterra, alguns dirão que você abandonou o país e os traiu, e suas vozes se erguerão contra você até a sua morte.

— Desde que seja um discurso honesto, não importa o que digam — disse Daniel Webster. Então, olhou para o estranho e seus olhares se cruzaram. — Uma pergunta — disse ele. — Lutei pela União a vida toda. Verei essa luta vencida contra aqueles que querem destrui-la?

— Não enquanto você viver — disse o estranho, sombriamente. — Mas ela será vencida. E depois que você morrer, haverá milhares que lutarão pela sua causa, por causa das palavras que você proferiu.

— Então, seu balofo corcunda! Metido a adivinho manco! — praguejou Dan’l Webster, com uma grande gargalhada. — Vá para o seu lugar antes que eu mesmo chute você até lá! Porque, pelas treze colônias, eu iria até o próprio Poço para salvar a União!

E com isso, ele recuou o pé para um chute que teria atordoado um cavalo. Apenas a ponta do sapato atingiu o estranho, mas ele foi arremessado para fora da porta com sua caixa de coleta debaixo do braço.

— E agora — disse Dan’l Webster, vendo Jabez Stone começar a despertar de seu desmaio —, vamos ver o que sobrou na jarra, porque esse falatório de noite inteira, todo esse trabalho... dá uma sede danada. Espero que você tenha torta para o café da manhã, vizinho Stone.

Dizem que sempre que o diabo se aproxima de Marshfield, mesmo agora, ele mantém uma distância segura. E ele não foi visto no estado de New Hampshire desde aquele dia até hoje.

Ah, claro...

Não estou falando de Massachusetts ou Vermont.


O Diabo e Daniel Webster

O Diabo e Daniel Webster

Fim

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