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CORAÇÃO SATÂNICO (1987)

Foto do escritor: Jefferson Sarmento
Jefferson Sarmento
há 7 minutos
7 min de leitura

Culpa, identidade e o preço de saber quem você é


Aviso: este artigo contém spoilers importantes de Coração Satânico. Se você nunca assistiu ao filme, vale muito a pena vê-lo antes de seguir.

Deixe-me fazer um convite a você, leitor (ou escritor) que passou por este artigo e ficou curioso para saber alguma coisa sobre o filme (ou o livro) Coração Satânito: que tal discutirmos um pouco do que eu considero "a alma" de uma história, para além da ação ou da simples narração de eventos? Estou falando dos temas que movem os personagens e os tornam realmente humanos nas páginas de um livro ou numa tela de cinema e televisão. Aquilo que faz com que nos sintamos realmente conectados com a narrativa. Em Coração Satânico, esses temas estão íntimamente ligados com a resolução da história e, por isso, para analisá-los, precisamos partir do ponto em que já sabemos o paradeiro de Johnny Favorite e o que Harry Angel tem a ver com isso.


Mais que isso, acho, nada melhor do que uma história sobre almas perdidas para falar sobre... a alma de uma história.


Harry Angel e a descoberta de Édipo


Harry Angel é um investigador particular típico de história noir. Poderia ter sido escrito por Dashiell Hammett ou Raymond Chandler. E, como bom detetive desse tipo de trama, aceita um caso que lhe parece banal: encontrar um cantor desaparecido. Suas pistas são documentos adulterados, prontuários rasurados, testemunhas que parecem saber apenas recortes de algo maior. Ele vista endereços antigos e tenta entrevistar pessoas que conheceram ou esbarraram com Johnny Favorite (o sujeito que ele está procurando), e todos paracem esconder alguma coisa.


Durante boa parte de Coração Satânico, Alan Parker, o diretor, preserva essa aparência de investigação convencional. Mesmo quando o sobrenatural já começou a ocupar os cantos da história. Harry continua fazendo as suas perguntas, tentando encontrar novas pistas, encaixar as que já descobriu. Ele acredita que qualquer mistério pode ser reduzido a informações suficientes. E, de fato, o caso avança e algumas respostas aparecem. E todas elas estão corretas, mas... confusas. O problema é que o investigador parte de uma ideia errada desde o primeiro momento: ele acredita que Johnny Favorite é... digamos, outra pessoa.


William Hjortzberg
William Hjortzberg: autor de Fallen Angel, livro que deu origem ao filme Coração Satânico

Essa é a engrenagem que William Hjortsberg já havia colocado no centro de Falling Angel, livro publicado em 1978 que deu origem ao filme. O romance abre com uma epígrafe de Édipo Rei, e a referência está muito longe de ser apenas ornamentação literária. Édipo também investiga um crime (a morte do rei anterior) seguindo um caminho lógico, interrogando pessoas e reunindo informações verdadeiras até compreender o lugar que ele próprio ocupa dentro daquilo que procura.


Oh, quão terrível é a sabedoria quando não traz proveito algum ao sábio que a possui. (Sófocles:Édipo Rei)

Pois Harry Angel repete esse percurso dentro de uma história hard-boiled. A cada nova pista, a distância entre investigador e investigado diminui um pouco mais.


A culpa depois do esquecimento


É o personagem Ethan Krusemark, já perto do fim da história, quem finalmente reconstrói o passado de Johnny Favorite. A essa altura, o mistério que Harry tentava desvendar já nos é extremamente viciante e enrevante: sabemos que há algo errado naquela história toda, que o detetive está perto demais de um segredo que pode nos custar a alma.


Favorite havia feito um pacto com Satanás e tentou escapar da cobrança sequestrando um jovem soldado, para depois de matá-lo num ritual e consumir seu coração, roubando sua identidade. Antes que essa nova personalidade pudesse se estabilizar completamente, ele foi convocado para a guerra, voltou ferido e perdeu a memória. A partir daí passou a acreditar que realmente era..., aquela outra pessoa. Bem, acredito que você sabe de quem estamos falando e vamos ser bem francos aqui: Harry Angel é Johnny Favorite.


Essa explicação cria a questão mais interessante do filme. O homem que acompanhamos durante toda a história não se lembra de ter cometido os crimes de Johnny Favorite. Ele acredita sinceramente ser a vítima. Trabalhou, construiu uma vida e organizou sua percepção do mundo a partir de uma identidade que considera legítima. Quando sente medo, indignação ou repulsa diante do que descobre sobre Favorite, essas reações também são sinceras - e a atuação de Mickey Rourke no momento da decoberta é magnífica!


Robert De Niro e Mickey Rourke
Luois Cyphre (Robert De Niro) e Harry Angel/Johnny Favorite (Mickey Rourke)

Louis Cyphre sabe, desde o começo, que Harry era a alma que estava procurando. Ele poderia simplesmente cobrar o que lhe havia sido prometido. Só que o processo escolhido por ele é muito mais cruel: contratar Harry para encontrar Johnny Favorite. A investigação, portanto, é uma recuperação dirigida da memória. Harry conversa com pessoas ligadas ao passado, encontra documentos, vê cadáveres, começa a reconhecer imagens que antes pareciam desconexas e chega por conta própria à resposta que Cyphre sempre conheceu. O sofrimento do personagem depende dessa recuperação. Ele precisa compreender o crime para compreender também sua condenação.


Isso torna a situação moral de Harry especialmente incômoda. Durante anos, ele viveu protegido pelo esquecimento. Não porque tenha buscado redenção ou se arrependido, e sim porque não sabia de que deveria se arrepender. O filme transforma a descoberta da identidade numa espécie de reencontro forçado com a responsabilidade. Quando Harry insiste, no fim, que sabe quem é (ainda tentando se afirmar como Harry Angel), a frase perdeu a segurança que teria no início da trama. Ele agora, mesmo que negue, sabe exatamente quem é.


Um Diabo que já ganhou


Gosto profundamente da atuação de Mickey Rourke, mas não seria justo não falar da interpretação de Robert De Niro, que funciona justamente tão perfeitamente na história porque Louis Cyphre, em momento algum, parece disputar nada com Harry. Seus encontros têm uma calma quase profissional, comedida e negocial. Ele fala baixo, controla os movimentos e acompanha o avanço da investigação sem ansiedade... E descobrimos o porquê disso no final trágico da trama: Cyphre conhece o resultado antes mesmo de Harry Angel surgir nas ruas frias de Nova Iorque, fumando seu cigarro e caminhando incólume para seu escritório.


Acompanhamos os detalhes desse outro personagem nos poucos momentos em que ele surge (porque o diabo está nos detalhes, lembre-se disso!): as unhas crescem discretamente, o cabelo e o figurino criam pequenas deformações leves ao longo do filme, mas o elemento mais ameaçador continua sendo a certeza impassível do personagem.


Essa mesma calma demoníaca está na maneira como o pacto/contrato é tratado por ele. Johnny Favorite fez um acordo e tentou fugir da cobrança. Cyphre aparece apenas como alguém que veio exigir aquilo que lhe pertence. Tem a postura de quem não precisa que lhe paguem, mas que jamais deixaria um devedor à solta. Seria ruim para os negócios. E é essa lógica explica por que a cena do ovo funciona tão bem: Harry já percebeu que pessoas estão morrendo e quer abandonar o caso. Cyphre oferece mais dinheiro enquanto descasca lentamente um ovo cozido, explica sua associação com a alma e depois o come diante dele. Harry aceita continuar.


Quando conhecemos toda a história, a conversa ganha uma ironia pesada. Johnny Favorite já havia aceitado uma proposta de Cyphre no passado. Décadas depois, vivendo como Harry Angel e sem qualquer lembrança daquele acordo, volta a negociar com o mesmo homem. Cyphre não precisa enganá-lo de maneira elaborada. A história oferece a Harry uma saída naquele restaurante, e ele escolhe permanecer no caso. O Diabo observa o homem repetir, então, um gesto que já realizou antes.


O corpo parece saber antes da mente


No filme, Alan Parker trabalha a recuperação da identidade de Angel/Favorite também através de Mickey Rourke. No começo, Harry possui a segurança típica de um detetive hard-boiled. Invade espaços, pressiona testemunhas, mente quando precisa e reage ao desconforto com sarcasmo. Conforme se aproxima de Favorite, essa postura começa a desmanchar. O suor aumenta, a aparência se deteriora, ele parece cada vez mais pálido e desleixado, perdido, a voz perde estabilidade e o medo invade situações que antes seriam rotina para um profissional.


Mickey Rourke
Harry Angel encara seu reflexo partido: a identidade em cacos

Há uma coerência importante entre essa transformação física e a própria origem da identidade roubada. Johnny Favorite não assumiu Harry Angel através de papéis falsificados. O ritual envolve o corpo da vítima, seu coração e a tentativa de apropriação de sua alma. Por isso Coração Satânico é tão material para uma história preocupada com identidade. O filme insiste em sangue, comida, calor, suor, cadáveres, unhas, sexo. Ideias abstratas aparecem continuamente presas a alguma coisa física.


A mudança para a Louisiana reforça esse processo. Parker deslocou para o Sul uma parte da história que, no romance, se passava em Nova York. A escolha altera o ritmo da investigação porque Harry deixa para trás o ambiente que conhece e entra num espaço onde sua experiência profissional não vale de nada. A diferença geográfica carrega a diferença cultural junto, expondo a limitação do próprio personagem. O detetive continua acreditando que compreende aquilo que vê mesmo quando começa a operar dentro de referências que desconhece, mas seu exterior revela que está cada vez mais perdido, quanto mais se aproxima da verdade.


Coração Satânico: A última questão


O desfecho de Coração Satânico funciona porque Harry resolve o caso. Não sobra uma pista escondida que mudaria tudo outra vez. Krusemark explica o ritual, as imagens que Harry alucinava vez por outra recuperam sentido e Cyphre apenas confirma aquilo que a investigação já demonstrou.


Johnny Favorite foi encontrado.


Quando Harry entra no elevador, logo depois de confirmar a morte de Epiphany, ele é o avesso daquele que iniciou a busca pelo cantor. Antes ele desconhecia o próprio passado. Agora conhece os crimes, entende o pacto e sabe por que Louis Cyphre o conduziu até ali. A imagem do elevador descendo para a escuridão encerra a investigação e também a única identidade dentro da qual ele havia conseguido viver.


É por isso que Coração Satânico continua interessante mesmo para quem já conhece sua revelação. Descobrir antecipadamente que Harry Angel é Johnny Favorite elimina parte da surpresa, mas preserva o aspecto mais cruel da história: acompanhar um homem reunir, voluntariamente, as provas que tornarão impossível continuar acreditando em si mesmo.


Poster Coração Satânico

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