Sobre os três atos de Aristóteles (parte final)

Atualizado: 30 de dez. de 2021

Aristóteles reserva para seu último ato a "peripécia", o que pode ser considerado o ponto principal da trama. Ela pode ser entendida como uma reviravolta, um plot twist. O personagem está feliz e contente, seguro em seu mundo, quando acontece algo que o tira desse conforto. Aristóteles defende que todo o texto deve trabalhar para construir a peripécia, e que o ideal é que o reconhecimento, que veremos a seguir, aconteça ao mesmo tempo.

“Peripécia” é a mutação dos sucessos, no contrário, efetuada de modo como; e esta inversão deve produzir-se, também o dissemos, verossímil e necessariamente. Assim, no Édipo, o mensageiro que viera no propósito de tranquilizar o rei e de libertá-lo do terror que sentia nas relações com a mãe, descobrindo quem ele era, causou o efeito contrário.(ARISTÓTELES 1452a 22)

Já o reconhecimento é quando o protagonista descobre quem as pessoas realmente são, suas reais identidades. É possível pensarmos no “Catalisador” (SNYDER, 2005) ou na “provação suprema” (CAMPBELL, 2004), mas Aristóteles não define o reconhecimento dessa maneira, tanto que no Édipo Rei, exemplo usado pelo autor, podemos perceber claramente que o catalisador é a descoberta de que o assassino de Laio é responsável pelas mazelas que a cidade sofria. Talvez a provação suprema para Édipo seja a descoberta do suicídio de Jocasta.


O “reconhecimento” como indica o próprio significado da palavra, é a passagem do ignorar ao conhecer, que se faz para amizade ou inimizade das personagens que estão destinadas para dita ou para a desdita. (ARISTÓTELES 1452a 30)


E o encerramento da tragédia resulta em catástrofe. Nosso protagonista, para Aristóteles, tem que se dar mal. A paixão (páthos) que pode ser entendida como sentimento, impulsiona o homem para a ação (práxis), aqui entendida como atitude. Édipo furou os olhos, Otelo cometeu suicídio.


A catástrofe é uma ação perniciosa e dolorosa como o são as mortes em cena, as dores veementes, os ferimentos e mais casos semelhantes (ARISTÓTELES 1452b 9).


Essa é basicamente a sugestão de Aristóteles para construir uma tragédia excelente. Fazer o povo se emocionar com as consequências das ações do protagonista, com a catástrofe que se abate sobre ele. Trabalhar o texto em torno de uma reviravolta (peripécia) que ocorrerá ao mesmo tempo em que os personagens da dinâmica narrativa mudam de função (reconhecimento). Ainda que seu texto não seja uma tragédia, essa estrutura e estratégias milenares podem e devem ser lembradas, usadas, referenciadas e obviamente, transgredidas em nossas narrativas contemporâneas.


Bibliografia

ARISTÓTELES. Poética. SOUSA, Eudoro de. Tradução, introdução, comentário e apêndices. Lisboa: Imprensa Nacional–Casa da moeda, 1994.

CAMPBELL, Joseph. Herói de mil faces, O. Cholsamaj Fundacion, 2004.

FIELD, Syd. Manual do roteiro. Editora Objetiva, 2001.

INGERMANSON, Randall Scott. How to Write a dynamite scene using the snowflake method. Ingermanson Communications, Incorporated, 2014.

SNYDER, Blake. Save the cat. Michael Wiese Productions, 2005.

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