Sobre os três atos de Aristóteles

Vou abordar em três postagens (essa é a primeira) um assunto que muitos professores de escrita colocam como nota de rodapé, mas poucos têm paciência para explicar, ou para levar à sala de aula: o que Aristóteles escreveu, de fato, que originou a estrutura de escrita, os três atos sobre os quais sempre se fala nos cursos online, no Youtube, em aulas de escrita criativa ou pela Wikipédia? Pois sim, as misteriosas palavras de Aristóteles serão (minimamente) deslindadas aqui, e tentaremos pinçar de um manual “um pouco” mais antigo que O Herói de Mil Faces de nosso querido Joseph Campbell alguns fundamentos do paradigma (FIELD, Syd. 2001, p.11), e quem sabe alguma técnica que seja útil para quem tem a intenção de aprender com o estagirita.

Penso que precisamos lembrar que o assunto sobre o qual Aristóteles se detinha enquanto teorizava sobre estrutura narrativa eram as tragédias. Claro que os gregos tinham nesse gênero, que de alguma maneira originou o que hoje conhecemos como teatro, uma expressão de excelência, o que levava estudiosos como Aristóteles a se debruçar sobre variadas tragédias para compreender o que levava as pessoas a se contagiarem de maneira tão grande por histórias representadas. Nós queremos contagiar as pessoas através de nossa arte, por isso, é válido mencionar a definição de Aristóteles para a Tragédia:

É, pois, a tragédia imitação de uma ação de carácter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com as várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes [do drama], [imitação que se efetua] não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções (ARISTÓTELES 1449b 24-28).

Primeiramente, preciso explicar que o manual usado neste artigo será a Poética de Aristóteles, que até já citei, sem ao menos avisar a você, leitor. A Poética, desse modo, é uma ciência da poesia, ela tem um status elevado, uma filosofia que dialoga com o que Aristóteles chama de imitação.

Enfim, pode ser dito que Poética era a arte de imitar, e no caso da tragédia, essa imitação era de pessoas, digamos, heroicas. Por isso era importante aos olhos de Aristóteles que aquele personagem (carácter), hoje normalmente chamado de protagonista, fosse superior aos homens comuns, e tudo bem, isso fazia parte do que chamarei aqui de “jogo narrativo” da tragédia. A citação serve para destacarmos duas coisas, o fato de que a tragédia é dividida em partes e que ela mexe com as emoções.

(Continua daqui a 15 dias)

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