KING KONG: 1933

Por que me preocupar em assistir a um filme em preto e branco, de 1933, com efeitos especiais risíveis e toscos?

Importante como poucos para a história do cinema, King Kong de 1933 é, mais que isso, uma marca na história da arte de se contar uma história. Traz no roteiro a receita de aventuras com ação ininterrupta que deu origem a histórias modernas, como Indiana Jones. Flerta com o erotismo machista exponenciado numa criatura feroz que não perde tempo ou guarda pudor em arrancar os trapos da mocinha, enquanto o herói desfia frases sexistas que hoje o colocariam na cadeia. Explora o horror dos indefesos humanos diante de criaturas selvagens horripilantes e brutais – é o imperialismo fazendo beicinho e se fazendo de vítima dos indígenas cruéis, que podem até parecer subjugados pelo ego do homem, mas continuam perigosas e mortais como se na selva de onde nunca deveriam ter saído.

Fruto de uma ideia do produtor e diretor Merian Caldwell Cooper, que imaginou (ou sonhou) um enorme gorila no topo do Empire State Biulding, lutando contra aviões de guerra, King Kong é o resultado do interesse do público por aventuras nas selvas, com animais ferozes e heróis destemidos. As primeiras décadas do século XX foram recheadas delas – como “Tarzan, o Homem Macaco”, “O Mundo Perdido”.


Roteirizado pela esposa de Merian Cooper, a história clássica acompanha um produtor de filmes, Carl Denham, em busca de uma misteriosa ilha no Pacífico, para onde carrega às cegas a tripulação desconfiada do navio SS Venture. E, claro, Ann Darrow (Fay Wray), a moça bela e pobre que será a estrela de seu filme, resgatada da sarjeta ao tentar roubar fruta numa banca de rua, elevada à categoria de atriz depois que nenhuma companhia de teatro quis recomendar suas contratadas ao nada confiável produtor.

Denham explica, depois que o navio chega a certo ponto da viagem, que adquiriu de um navegador norueguês um mapa que mostra uma ilha desconhecida, onde uma tribo nativa mantem-se segura numa península estreita, protegida dos misteriosos perigos da selva atrás de uma muralha imensa, aos pés de uma montanha em forma de caveira. Eles temem o Kong, nome que o capitão Englehorn atribui a uma entidade mitológica nunca vista, mas temida pelas várias culturas e povos por onde passou em suas viagens pelo Pacífico.


Está é apenas a introdução para uma adaptação assustadora do conto de fadas francês A Bela e a Fera, de Gabrielle-Suzanne Barbot, alusão repetida à exaustão pelo produtor-personagem Denham, estampada na abertura do filme por um suposto provérbio árabe – na verdade inventado pelo produtor/diretor verdadeiro, Merian C. Cooper.


“E a fera olhou a face da bela, e ela ficou em suas mãos, e a partir desse dia, a fera estava condenada à morte”

Entra em cena Ann Darrow, a Bela de Denham, apaixonada pelo imediato Jack Driscoll (Bruce Cabot, ator de descendência francesa, que na década seguinte se tornaria grande amigo de Errow Flynn e sua trupe, incluindo-se aí o playboy brasileiro Jorge Guinle, na época ainda milionário) e a noiva perfeita para o Kong – aos olhos dos nativos maravilhados com sua pele branca e seus cabelos dourados.

Cabe ao heroico (e machista ao extremo, um personagem misógino enrustido que admite odiar as mulheres) Jack Driscoll salvá-la das garras da fera, depois que toda a equipe de salvamento morre dos perigos da ilha – dinossauros, monstros pré-históricos, serpentes gigantescas!


A cena em que Kong os joga de um precipício, derrubando um tronco de árvore gigante, foi repetida no filme de 1976 e, no de 2005, de Peter Jackson, ganhou uma sequência que teria sido cortada deste original de 1933. Alguns historiadores de cinema dizem que a tal cena com aranhas e outros monstros nojentos, responsáveis por dizimar os sobreviventes da queda no precipício, nunca chegou a ser filmada. Mas houve testemunhas de uma famigerada sessão de onde o público teria saído horrorizado e em ânsias, levando Merian C. Cooper a sumir com aquele trecho – nunca mais foi encontrado.


A história clássica termina com Kong no alto do Empire State, lutando contra os biplanos e despencando para a morte. Aos pés do edifício, Denham e o chefe de polícia reforçam a trágica versão de a Bela e a Fera que acabaram de presenciar.

– Bem, Denham, os aviões o derrotaram! – o policial diz. – Não. Não foram os aviões – Denham responde. – Foi a bela que matou a fera.

King Kong foi o primeiro grande filme da indústria a ter um tema musical original adaptado à história, ao invés de uma simples música de fundo – depois que o compositor Max Steiner recusou a encomenda de aproveitar temas de outros filmes e entendeu que a grandiosidade de Kong pedia o seu próprio. Pagou do bolso uma orquestra com 46 peças e inaugurou a gravação de trilha em três faixas no cinema – uma para a música, uma para os sons de efeito e outra para os diálogos. Lotou as grandiosas salas de teatro nova-iorquinas (Roxy e Radio City Music Hall) em suas várias sessões diárias – quase dez mil lugares – e foi uma das três maiores bilheterias do ano. Era um dos favoritos de Adolf Hitler, junto com “Branca de Neve e os sete anões” e os filmes do Gordo e o Magro – se é que isso é mesmo uma vantagem.


Mais de oitenta anos depois, é considerado um dos mais importantes filmes de fantasia de todos os tempos, figurando em várias listas relevantes, de jornalistas e da própria indústria cinematográfica. Os efeitos com fotografia quadro a quadro (hoje toscos para a plateia acostumada à computação gráfica elevada à categoria de realidade quase palpável, mas surpreendentes na década de 1930) foram instrumento base de grandes realizadores como Ray Harryhausen (dos filmes de Simbad e do original de “Fúria de Titãs”) e Phil Tippet – este de produções mais modernas, como “Robocop”, “Tropas Estelares”, “Indiana Jones do Templo da perdição”, “Guerra nas Estrelas”... até a Saga Crepúsculo.

King Kong 1933 é um desses filmes antigos que deixa em quem assiste a vontade de ter estado lá para vê-lo em primeira mão, nos primeiros cinemas, aterrorizado pela possibilidade de uma fera daquelas realmente existir.


Deu seu adeus final a Fay Wray em agosto de 2004, quando a atriz morreu de causas naturais num hospital em cuja sala de emergência passava uma repise de seu filme mais famoso. Peter Jackson queria que ela dissesse a frase final de seu remake, de 2005, o que infelizmente não foi possível.


Conta-se que toda vez que Fay passava pelas calçadas do Empire State, fazia uma oração e mencionava que um velho amigo tinha morrido... lá em cima.


Jefferson Sarmento é escritor da Tramatura, autor de A Casa das 100 Janelas, Relicário da Maldade, Alice em Silêncio... e colaborador da Casa de Tramas. E apaixonado por cinema!

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