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A Era da Ouro da Ficção Científica

Atualizado: 20 de nov. de 2023

Ou: por que resolvemos publica "Científica Ficção", um projeto de livros de ficção científica com contos da Era de Ouro, publicados há mais de 70 anos - por Jefferson Sarmento


Vamos começar pelo começo e te contar por que estamos aqui. Sempre fui um apaixonado por histórias de ficção científica, embora raramente tenha me atrevido a escrever uma. Outro senão: comecei a consumir e devorar literatura muito cedo, acho que logo que aprendi a juntar palavras, mas foi através das séries e dos filmes que a ficção científica chegou a mim — essa última plataforma me apresentou ao gênero em O Incrível Homem que Derreteu, de 1977.


Assisti na televisão, claro, em algumas reprises. O filme pega emprestado o prefixo de “O Incríveu Homem que Enconlheu”, história de Richard Matheson adaptada para o cinema em 1957 e que conta como esse cara, num belo dia, começa a encolher, ficar menor e menor e menor, e agora precisa sobreviver em sua condição que o torna cada vez mais exposto ao perigo, de aranhas ao seu próprio gato de estimação.

Cena de "O Incrível Homem que encolheu"

Já o outro homem, o que derreteu, conta a história desse astronauta que deu uma voltinha pelos anéis de Saturno e retorna à Terra como único sobrevivente de sua jornada. Ocorre que ele contraiu algum mal excêntrico e horripilante na viagem: seu corpo está derretendo e ele vai enlouquecendo e se tornando um assassino gosmento ao longo do filme. Eu amei e quase me acabei de nojo e horror daquele filme, mas toda vez que passava na televisão, eu queria ver de novo. E de novo. E até assisti outra vez esta semana, enquanto pensava no que escrever para abrir essa seleção da Tramatura.

"Perdidos no Espaço" - série original

Possivelmente eu assisti a séries scifi primeiro que assisti a filmes. Terra de Gigantes (de que eu tenho um box na estante), Jornada nas Estrelas, Perdidos no Espaço, O Túnel do Tempo, O Homem do Fundo do Mar , até mesmo alguns episódios mais fantasiosos de Viagem ao Fundo do Mar. Todos tinham uma carga de inventividade e aventura profundamente baseada em elementos de ficção científica. E todas elas, querendo ou não, beberam da criatividade de autores absurdamente visionários que se consolidaram escrevendo histórias curtas para as revistas pulp do gênero. Revistas que viraram uma febre a partir do final dos anos 1930.


A tal Era de Ouro de que falei lá em cima, dizem, foi até o final dos anos 1950, mas na verdade era um gênero relegado a segundo plano até mesmo nesse período, tanto que a crise de celulose daquele período dizimou justamente essas revistas (e as de terror) a partir de 1951, ano que marca o início do encolhimento do setor.

Contudo, esse encolhimento não significou (de jeito nenhum) que a criatividade das histórias estivesse em declínio também. O movimento iniciado timidamente pela Amazing Stories, em 1926, alcançaria velocidade de decolagem com a Astounding Science Fiction em 1936 — fundada, na verdade, em 1930, com o nome Astounding Stories of Super-Science — nome que você precisa guardar, por que foi com ela que a Era de Ouro teve seu ponto final e chegaremos a ele daqui a pouco. Nesse meio tempo, vieram a Air Wonder Stories (que só teve um ano de vida) e a Science Wonder Stories em 1929, Doc Savage (1933 a 1946), Wonder Stories (1930 a 1933 – depois reedidata a partir de 1957)…


Depois que a Astounding Science Fiction praticamente sedimentou a literatura pulp de ficção cientifica nos Estados Unidos, na segunda metade da década de 1930, o planeta praticamente inexplorado passou a receber mais e mais visitantes: Astonishing Stories (1940 a 1943), Captain Future (1940 a 1944), Dynamic Science Stories (1939), Fantastic Adventures (1939 a 1953), Fantasy Fiction (1950), Galaxy Science Fiction (1950 a 1958)… e outras dezenas de publicações que ganhavam bancas e livrarias na velocidade de uma nave interestelar.


Parte dos estudiosos do movimento literário da ficção científica, lá na terra do Tio Sam, crava o fim da Era de Ouro em 1950. Segundo eles, esse foi o ápice do crescimento, e até ali as histórias tinham um formato mais amplo ou épico. A partir da década de 1950, os temas começam a ficar mais escapistas, com autores buscando personagens menos heróicos ou jornadas mais turbulentas.

Na verdade, o que de fato ocorreu é que a década de 1940 viu o que o escritor Robert Silverberg (com uma vasta carreira no scifi, como autor e editor, figurinha fácil nas premiações do gênero por lá) chamou de uma “falsa aurora” . As revistas estavam em crescimento, mas estavam ali por conta de um grupo abnegado de autores e editores que queriam amparar o genero, independente do retorno financeiro que davam.


Foi a partir de 1950 que a quantidade de editoras de ficção científica realmente cresceu. E de títulos. Os horizontes se ampliaram velozmente e a grade de autores também. A qualidade dos texto passou a variar sem pudores, mas grandes histórias foram escritas também. Contudo, sem perder o foco citando uma e outra, o importante aqui é entender que 1950 não marcou de fato o fim da Era, mas uma evolução estrutural e comercial que acabaria com a mudança de nome da Astounding Stories of Super-Science para Analog Science Fiction and Fact, em 1960. Nesse ponto, o filão estava esgotado da forma como havia sido concebido, e uma lista monstruosa de revistas fechava sua quarta-capa pela última vez.

Mas é esse ínterim que nos importa e é disso que a gente devia estar falando de verdade: o que se produziu de ficção científica nessa tal Era de Ouro. Caras como Isaak Asimov surgiram para o mundo justamente nesse meio. E também John W. Campbell Jr, autor da história que deu origem ao filme Enigma do Outro Mundo e editor do melhor período da revista Astounding Science Fiction. Mais? Kurt Vonnegut e Ray Bradbury (que aparecem nas próximas páginas com os contos “2 B R O 2 B” e “Uma Pequena Jornada”, respectivamente), Arthur C. Clarke, Philip K. Dick, e uma lista enorme de outros escritores que imaginaram mundos, seres, crises, avanços tecnológicos, termos hoje usados até pela ciência, histórias maravilhosas!


E é por isso que estamos aqui: porque eu gostaria que você visitasse, comigo e com a Tramatura, algumas dessas histórias. Portanto preparamos esta edição com 8 contos que originalmente foram publicados em algumas dessas revistas e que, juro, vão surpreender você pela originalidade, pela inventividade e, porque não?, ingenuidade de uma Era que consolidou a ficção científica e refundou o sci moderno.


Boa leitura!



Jefferson Sarmento é escritor da Tramatura, autor do nosso novo lançamento: Terra de Almas Perdidas, mas também de A Casa das 100 Janelas, Relicário da Maldade, Alice em Silêncio... ... e colaborador da Casa de Tramas.

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